“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Livros e flores

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

(Machado de Assis)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O problema das modernas discussões sociais

Chesterton
O doente pode querer ou não querer quinino[1], mas o que quer certamente é saúde. Ninguém diz: "Estou cansado desta dor de cabeça; quero uma dor de dentes!", ou: "A única coisa para esta gripe russa é uma varicela germânica!" ou ainda “Através desta bronquite, avisto o refulgente paraíso dum reumatismo!”.

Todavia, a dificuldade dos nossos problemas públicos está toda em que certos homens procuram curas que outros homens considerariam como doenças ainda piores e oferecem ideais de saúde que outros se obstinam em classificar de estados patológicos.

Este é o ponto em suspensão, o fato dominante nas modernas discussões sociais: a questão não diz meramente respeito às dificuldades, mas às finalidades. Estamos de acordo quanto ao mal, mas é quanto ao bem que nos agatanhamos. Todos admitimos que uma aristocracia inativa é prejudicial, mas isto não obriga a que todos aceitem como benéfica uma aristocracia ativa. Todos nos sentimos incompatibilizados com um clero irreligioso, mas alguns de nós se enfureceriam enojados só de pensar num clero verdadeiramente religioso. Causa indignação geral a eventual fraqueza do nosso exército, mas há aqueles que se indignariam ainda mais de o ver fortalecido.


[1] Quinino é um alcalóide de gosto amargo que tem funções antitérmicas, antimaláricas e analgésicas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Plutocracia

Chesterton
No coração de uma plutocracia[1] os homens de negócios acabam por ser bastante espertos para serem mais pedantes que seus clientes. Eles se empenham em criar dificuldades para que seus ricos e entediados clientes gastem dinheiro e diplomacia em tentar superá-las. Se houvesse um hotel elegante em Londres em que nenhum homem que medisse menos do que um metro e noventa de altura pudesse entrar, a sociedade organizaria grupos de homens de um metro e noventa de altura para jantar nele. Se houvesse um restaurante caro que, por mero capricho do proprietário, só abrisse às quintas-feiras de tarde, estaria abarrotado de gente às quintas-feiras de tarde.
[1] A influência dos ricos ou do dinheiro na sociedade.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Tradição

Tradição nada mais é do que uma democracia mais ampla, onde o voto dos nossos antepassados é levado em consideração.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Imposturas intelectuais


Muitas vezes, temendo por estarmos errados, expomos nossas idéias de modo vago, deixamo-las vagando no ar como fumaça. Assim, caso nossas idéias sejam atacadas, podemos sair escorregando, aqui e ali, pelas brechas, mostrando que não é bem isso, ou que fomos mal entendidos. Então conduzimo-las a se adaptarem à crítica feita.

Acontece que o homem que é mal entendido tem pelo menos uma vantagem sobre seus inimigos: “eles não conhecem seu ponto fraco ou seu plano estratégico. Eles saem para caçar pássaros com redes e saem para pescar com espingardas” (Chesterton).

A ciência moderna tem se aproveitado bastante dessa vantagem. Não faz muito tempo, foi lançado no Brasil o livro “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal e Jean Bricmont. No prefácio, os autores nos dão a idéia do conteúdo: “O livro originou-se da farsa, agora famosa, que consistiu na publicação, por um de nós, na revista americana de estudos culturais Social Text, de um artigo satírico cheio de citações sem sentido, porém infelizmente autênticas, sobre física e matemática, proferidas por proeminentes intelectuais... Esta obra trata da mistificação, da linguagem deliberadamente obscura, dos pensamentos confusos e do emprego incorretos dos conceitos...”

“A ciência anda substituindo a idéia de que os fatos e as evidências é o que importam, pela idéia de que tudo se reduz a interesses individuais e perspectivas subjetivas.” (Larry Laudan)

A obscuridade das idéias tem se tornado sinônimo de intelectualidade. Quanto menos entendermos um autor, tanto mais exaltado ele será.

Nossa dificuldade, como público, está em detectar tais “Imposturas”. Como público, digamos, leigo, torna-se muito complicado analisar a honestidade e o compromisso do autor com os fatos.

O esperto Wilks de “O homem que era quinta-feira”[1], se saiu bem diante das “Imposturas Intelectuais” do Sr. Worm:

“Quando ele [Worm] dizia uma coisa que ninguém, a não ser ele, sabia, respondia-lhe outra que nem eu próprio [Wilks] conhecia.

— Não imagine - disse ele - que teria conseguido deduzir o princípio de que a evolução é apenas negação, pois é inerente a ele a introdução de lacunas, que são essenciais na diferenciação.

Respondi desdenhosamente:

— Leu isso tudo no Pinckwerts, e já há muito que Glumpe expôs a idéia de que a evolução funcionava eugenicamente.

Não preciso nem dizer que Pinckwerts e Glumpe nunca existiram, mas, com grande surpresa minha, toda aquela gente parecia lembrar-se muito bem deles...

— Vejo – disse ele - que você prevalece, como o porco falso de Esopo
[2].

— E o senhor falha - respondi, sorrindo - como o porco-espinho de Montaigne.

Será necessário dizer que não existe nenhum porco-espinho em Montaigne?”

[1] Romance de G. K. Chesterton.
[2] Talvez referindo-se à fábula "O barrote, as ovelhas, o lobo e os porcos da aldeia" de Esopo.

Novamente, em defesa do senso-comum

Quando escrevia, na outra postagem logo abaixo, minha "Em defesa do senso-comum", procurava extasiadamente uma citação que estava em um dos meus livros e que resumia plenamente o meu ponto de vista. Não encontrei. Postei o texto sem ela. Porém, hoje, por um acaso, acabei encontrando-a. Ei-la, é a essência da postagem anterior:

"Quando o cérebro me excita na alma a sensação de uma árvore ou de uma casa, eu digo, sem hesitação, que existe realmente fora de mim uma árvore ou uma casa, cuja localização, tamanho e outras propriedades eu conheço. Logo, não se encontra homem nem animal que ponham em dúvida esta verdade. Se viesse à cabeça de um camponês essa dúvida, e ele, por exemplo, dissesse não acreditar que uma videira existe, apesar de estar em sua presença, seria considerado louco, e com boas razões. Porém, quando um filósofo apresenta tal comportamento, ele espera que nós admiremos seu conhecimento e sua sagacidade que ultrapassam infinitamente a capacidade de apreensão do povo". (Leonhard Euler)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Em defesa do senso-comum

Vivemos, atualmente, num momento tão absurdo que, muitas vezes, parece que o homem perdeu a razão.

O homem atual está tão preocupado com os detalhes, vai se curvando e chegando cada vez mais perto para notá-los, que acaba perdendo a visão do todo e sem essa visão do todo, o homem perde o senso de proporção. Constrói uma escultura totalmente desproporcional; ergue um monstro.

Todos os dias precisamos defender, de seus críticos, o senso-comum e o bom-senso. Dia a dia nos envolvemos na defesa dos valores tradicionais que sempre se mostraram certos, da moralidade que se mostrou saudável por milhares de anos e, por incrível que pareça, existe a necessidade de se defender até as coisas mais reais e concretas possíveis. Por mais absurdo que possa parecer, citando Chesterton, estamos tendo que “empunhar a espada para afirmar que a grama é verde”.

Êxtase

Aquela mulher com jeitinho de menina,
De expressivos olhos e boca bem desenhada,
Que me seduz sem saber.
Que é ingenuamente irresistível.
Aquela fonte de palavras doces,
Que não é poetisa, mas, facilmente, é um poema;
Que confunde minhas idéias e sensações;
Que não é filósofa, mas dá motivos à filosofia alheia.
Aquela beleza que, ao vê-la, denuncio-me.
Sinto um frio na barriga.
Meu Deus! Quando a vejo não me contenho;
Meus olhos não guardam segredo.
Ela me faz de cauto, indiscreto;
De tímido, faz-me ousado!
Às vezes, chego a ter medo!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Nem toda diversão é divertida para todos

Não sou anti-social, mas, muitas vezes, prefiro ficar em casa a participar de determinadas diversões. Nem toda diversão é divertida para todos.

A maioria das diversões atuais tem como alicerce a fuga de responsabilidades. É comum conceber os fins de semana e feriados como momentos para extravasar. Aquele que não acompanhar o ritmo, torna-se logo motivo de críticas, ironias e chacotas. Se dispenso o convite, porque quero ficar em casa, o que ouço mais comumente é: “Deixa de ser morto!”.

No entanto, “morto” é a única coisa que eu não sou, quando recuso um convite para certas diversões. O homem que está morrendo é justamente aquele que não consegue ficar na “monotonia”, ele tem que estar sempre mudando, porque se “cansa” rapidamente. A criança, que é cheia de vida, passa horas e horas na mesma brincadeira “monótona” de correr em círculos ou de chutar a bola contra a parede. O homem, hoje, cansa de uma festa e, antes mesmo dela terminar, vai pra outra. Quando acorda no outro dia, já tem que ter outra “diversão” marcada, que é pra não ficar em casa na “monotonia”. Este homem, sim, está morrendo. Ele se cansa de tudo e não consegue ficar “quieto” por muito tempo. Ele não consegue ficar sozinho, consigo mesmo, sem ficar angustiado.

Na última sexta-feira um amigo me chamou para sair para um lugar que toca um dos tipos de música que odeio. Após a minha recusa ele disse:

- Cara, tu tem que viver!

Depois, disse um provérbio que foi muito usado nos anos 60:

- Pedra que rola não cria musgo!

Então lembrei-me das palavras de Chesterton, que dizia que “as pedras rolantes fazem barulho ao tocarem as outras pedras; mas elas estão mortas. O musgo é silencioso porque está vivo".

Nesta sexta, diverti-me bastante relendo alguns grifos meus nos livros do Lewis.

Todos os caminhos levam a Deus?



Não fazemos parte de um mundo onde todos os caminhos são raios de um mesmo círculo e onde todos eles, se percorridos em um tempo suficiente, se vão aproximando até que se encontrem no centro; ao contrário, vivemos num mundo em que toda estrada, depois de alguns quilômetros, divide-se em duas, e cada uma dessas em mais duas, e a cada bifurcação você é obrigado a tomar uma decisão.
C. S. Lewis