“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Os novos rumos

* Trechos escolhidos do artigo THE NEW GROOVE, parte do livro THE COMMON MAN.

(Livre Tradução de Agnon Fabniano)

O inconveniente daquilo que chama a si mesmo de mentalidade moderna são simplesmente os "trilhos" e nosso hábito de ficarmos contentes com os trilhos, porque dizem que são os trilhos da mudança... O mais importante que tenho a dizer sobre os esses trilhos é isso: sua única forma de progresso é ir cada vez mais rápido ao longo de uma linha em certa direção. Não sentem a curiosidade de se deterem, nem conhecem o valor de voltar atrás... A locomotiva não progrediu para outra coisa que não fosse locomotivas cada vez mais velozes.

Apesar das mais violentas pretensões de independência, continua parecendo-me que a vida intelectual de hoje está simbolizada pelo trem, ou a estrada de ferro ou os trilhos. São enormes o barulho e a vivacidade com que se faz referência a certas modas ou rumos fixos do pensamento, assim como é enorme a velocidade que se consegue nos trilhos fixos de uma ferrovia. Porém, se começarmos a pensar realmente em sair do trilho, veremos que aquilo que é verdade a respeito do trem é igualmente verdade a respeito da verdade. Veremos que é mais difícil saltar do trem quando ele marcha velozmente do que quando ele está em lentidão. Veremos que a rapidez é rigidez; que se um movimento artístico, social ou político andar cada vez mais rápido, menos pessoas serão capazes de sair dele, ou mover-se contra ele. E no fim das contas talvez ninguém saltará para fora dele rumo à liberdade intelectual, assim como ninguém saltará de um trem que anda a 130 km/h.

Ao meu entender, esta é a principal característica do que chamamos pensamento progressista no mundo atual. Ele está limitado no mais exato sentido da palavra. Tem uma só dimensão. Vai em um só sentido. Está limitado por seu progresso. Está limitado por sua velocidade.

Os homens modernos não tem profundo conhecimento sobre os argumentos racionais a favor da tradição, porém conhecem, quase até a exaustão, os argumentos racionais a favor da mudança.

Não quero dizer que a verdade está somente na tradição; só estou dizendo que a publicidade está a favor da inovação.

Interpretaram-me muito mal se pensaram que estou pedindo passagens de volta à Atenas e ao Éden, simplesmente porque não quero ir no trem barato da Utopia. Quero ir aonde eu bem entender. Quero parar aonde eu bem entender. Quero conhecer o comprimento e a largura do mundo, ficar fora dos trilhos para andar pelas antigas planícies da liberdade.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Mitologia segundo Chesterton


O texto abaixo trata-se de um resumo através de trechos do capitulo do livro O Homem Eterno, em que Chesterton fala sobre a mitologia. Seu ponto de vista é que a mitologia é poesia e não alegoria, refutando, assim, as argumentações que tendem a classificá-la com precursora da religião. É uma argumentação forte e poética e, principalmente, uma análise profundamente psicológica.


Todo esse assunto mitológico pertence à parte poética dos homens. Parece estranhamente esquecido hoje em dia o fato de que um mito é fruto da imaginação e, portanto, uma obra de arte. Requer-se um poeta para criá-lo. Requer-se um poeta para criticá-lo. Há no mundo mais poetas que não-poetas, como se comprova pela origem popular dessas lendas. Mas por alguma razão que nunca vi explicada, apenas a minoria não poética tem permissão de escrever estudos críticos desses poemas populares. Nós não submetemos um soneto a um matemático ou uma canção a um especialista em cálculos; mas acalentamos a ideia igualmente fantástica de que o folclore pode ser tratado como uma ciência. Se essas coisas não forem apreciadas do ponto de vista artístico, elas simplesmente não serão apreciadas. Quando o catedrático ouve o polinésio lhe dizer que outrora não existia nada exceto uma grande serpente emplumada, se o erudito não se sentir emocionado e meio tentado a desejar que isso fosse verdade, ele absolutamente não é um juiz dessas coisas. Quando lhe asseguram, com base na melhor autoridade dos peles-vermelhas, que um herói primitivo carregou o sol e a lua e as estrelas dentro de uma caixa, se ele não bater palmas e espernear como faria uma criança diante de uma fantasia tão encantadora, ele não sabe nada sobre o assunto.
(...)
A mitologia é uma arte perdida, uma das poucas artes que estão realmente perdidas; mas é uma arte.
(...)
Além disso, mesmo quando as fábulas são inferiores como arte, elas não podem ser julgadas apropriadamente pela ciência, e são ainda menos apropriadamente julgadas como ciência. Alguns mitos são muito rudes e estranhos como os primeiros desenhos de uma criança; mas a criança está tentando desenhar. Apesar disso é um erro tratar seus desenhos como se fossem ou como se pretendessem ser um diagrama. O estudioso não pode formular uma afirmação científica sobre o selvagem, porque o selvagem não está fazendo uma afirmação científica sobre o mundo. O que ele está dizendo é algo muito diferente: é aquilo que se poderia chamar de fofoca dos deuses. Podemos dizer, se preferirmos, que é algo em que se crê antes que haja tempo para examiná-lo. Estaria mais de acordo com a verdade dizer que é aceito antes que haja tempo para crer nele. Confesso que duvido de toda a teoria da disseminação de mitos ou (como geralmente acontece) de um único mito. É verdade que algo em nossa natureza e condição torna similares muitas histórias; mas cada uma delas pode ser original. Um indivíduo não toma emprestada uma história de outro indivíduo, embora ele possa contá-la pelo mesmo motivo do outro. Seria fácil aplicar toda argumentação sobre lendas à literatura e transformá-la numa vulgar obsessão de plágio.
(...)
Todavia, todo o problema é causado por quem tenta analisar essas histórias de um ponto vista externo, como se fossem objetos científicos. É preciso analisá-las apenas de um ponto de vista interno e perguntar-se como deveria começar uma história. Ela pode começar com qualquer coisa e tomar qualquer direção. Pode começar com um pássaro sem que esse pássaro seja um totem; pode começar com o sol sem que esse sol seja um mito solar. Dizem que há apenas dez enredos no mundo; e neles sem dúvida haveria elementos comuns recorrentes. Faça dez mil crianças falarem ao mesmo tempo contando lorotas sobre o que elas viram num passeio pela floresta, e não será difícil encontrar paralelos sugerindo o culto do sol ou o culto de animais. Algumas das histórias podem ser bonitas, algumas tolas e algumas talvez indecentes; mas elas só podem ser julgadas como histórias. Em um dialeto moderno, elas só podem ser julgadas do ponto de vista estético. É estranho que a estética, ou o mero sentimento, que agora tem a permissão para usurpar espaços a que ela não tem nenhum direito, para demolir a razão com o pragmatismo e a moral com a anarquia, não tenha permissão para emitir um julgamento puramente estético sobre aquilo que obviamente é apenas uma questão estética. Podemos ser fantasiosos acerca de tudo, excetuadas as lendas?
(...)
Os mitos não são alegorias. As forças naturais nesse caso não são abstrações. Não é como se houvesse um Deus da Gravitação. Pode existir um gênio das quedas d água, mas não do simples cair, muito menos da simples água. A personificação não está relacionada a algo impessoal. O ponto principal é que a personalidade aperfeiçoa a água com significado. Papai Noel não é uma alegoria da neve e do pinheiro; ele não é simplesmente a substância chamada neve que depois recebe artificialmente uma forma humana, como o boneco de neve. É algo que confere um novo significado ao mundo branco e às plantas sempre-verdes; de modo que a própria neve parece quente em vez de fria. O teste, portanto, é puramente imaginativo. Mas imaginativo não significa imaginário. Não resulta que seja tudo aquilo que os modernos chamam de subjetivo, e com isso eles querem dizer falso. Todos os verdadeiros artistas, consciente ou inconscientemente, sentem que estão tocando verdades transcendentais; que suas imagens são sombras de coisas vistas através de um véu. Em outras palavras, o místico natural de fato sabe que existe algo ali-, algo por trás das nuvens ou dentro das árvores; mas ele acredita que a maneira de encontrá-lo está na busca da beleza; que a imaginação é uma espécie de encantamento que pode evocá-lo.
(...)
Mas nós não sabemos o que essas coisas significam, simplesmente porque não sabemos o que nós mesmos significamos quando somos tocados por elas. Suponha-se que alguém numa história diga: “Arranque esta flor, e uma princesa morrerá num castelo do outro lado do mar". Nós não sabemos por que alguma coisa se agita no subconsciente, ou por que aquilo que é impossível parece quase inevitável. Suponha-se que leiamos: “E na hora em que rei apagou a vela seus navios foram a pique na distante costa das Hébridas". Nós não sabemos por que a imaginação aceitou a imagem antes que a razão pudesse rejeitá-la; ou por que essas correspondências parecem de fato corresponder a alguma coisa na alma. Coisas muito profundas em nossa natureza, alguma vaga sensação de que grandes coisas dependem de coisas pequenas, alguma sombria sugestão de que as coisas mais próximas de nós se estendem muito além de nosso poder, algum sentimento sacramental da magia presente nas substâncias materiais, e muitas outras emoções que se desfizeram estão presentes numa ideia como essa da alma exterior. O poder mesmo nos mitos dos selvagens é como o poder das metáforas dos poetas. A alma de uma dessas metáforas com muita frequência é enfaticamente uma alma exterior.
(...)
Esses são os mitos, e quem não compreende os mitos não compreende os homens.
(...)
Mas quem melhor compreender os mitos perceberá mais plenamente que eles não são e nunca foram uma religião, no sentido em que o cristianismo e até mesmo o islamismo são religiões. Eles satisfazem algumas das necessidades de uma religião, principalmente a necessidade de fazer certas coisas em certas datas, a necessidade das ideias gêmeas de festividade e formalidade. Mas, embora deem ao homem um calendário, não lhe dão um credo. Não houve alguém que se levantasse e dissesse: “Eu creio em Júpiter e em Juno e Netuno" etc., como quem se levanta e diz: “Eu creio em Deus, Pai todo-poderoso” e o restante do credo dos Apóstolos. Muitos acreditaram em alguns mitos e não em outros, ou mais em alguns e menos em outros, ou então em qualquer um deles, mas apenas num sentido poético muito vago. Não houve um momento em que todos os mitos foram coligidos numa ordem ortodoxa que os homens haveriam de defender lutando e enfrentando torturas.
(...)
A mitologia buscava a verdade por meio da beleza, no sentido de que a beleza inclui muito da mais grotesca feiura. Mas a imaginação tem suas próprias leis e, portanto, seus próprios triunfos, que nem teólogos nem cientistas conseguem entender. Ela permaneceu fiel àquele instinto imaginativo através de mil extravagâncias, através de todas as toscas pantomimas cósmicas de um porco comendo a lua ou de o mundo sendo extraído de uma vaca, através de todas as estonteantes convoluções e malformações místicas da arte asiática, através de toda a nua e crua rigidez dos retratos egípcios e assírios, através de todos os espelhos rachados da arte disparatada que parecia deformar o mundo e deslocar o céu, ela permaneceu fiel a alguma coisa sobre a qual não se pode discutir; alguma coisa que possibilita que algum artista de alguma escola pare de repente diante uma deformidade particular e diga: “Meu sonho se realizou”. Por isso nós de fato sentimos que os mitos pagãos ou primitivos são infinitamente sugestivos, desde que sejamos sábios o bastante para não indagar o que eles sugerem. Por isso todos nós sentimos o que significa o roubo do fogo do céu por parte de Prometeu, até que algum pedante pessimista ou progressista venha a nos explicar o que ele significa. Por isso todos nós sabemos qual é o significado de João e o Pé de Feijão, até que nos venham dizê-lo. Nesse sentido é verdade que são os ignorantes que aceitam mitos, mas apenas porque são os ignorantes que apreciam poemas.
(...)
Numa palavra, a mitologia é busca; é algo que combina um desejo recorrente com uma dúvida recorrente, misturando uma sinceridade ávida ao extremo na ideia de achar um lugar, com uma leviandade extremamente sombria e profunda e misteriosa em relação a todos os lugares encontrados. Até esse ponto a solitária imaginação pôde levar, e mais tarde devemos dirigir nossa atenção para a solitária razão. Nunca, em ponto algum ao longo dessa estrada, as duas viajaram juntas. É ali que todas essas coisas diferiram da religião ou da realidade em que essas diferentes dimensões se juntaram formando uma espécie de sólido. Diferiram dessa realidade não naquilo que elas pareciam, mas naquilo que eram. Um quadro pode parecer uma paisagem; pode parecer em cada detalhe exatamente uma paisagem. O único detalhe em que difere é que ele não é uma paisagem. A diferença é apenas aquela que separa um retrato da rainha Elizabelh da rainha Elizabeth. Somente nesse mundo mítico e místico o retrato pôde existir antes da pessoa; e o retrato era por isso mais vago e duvidoso. Mas qualquer pessoa que tenha sentido a atmosfera desses mitos e dela tenha se alimentado saberá o que quero dizer quando afirmo que em certo sentido eles não professam realmente ser realidades.
(...)
Os sonhos de fato tendem a ser muito vívidos quando tocam essas coisas delicadas ou mágicas que realmente podem fazer um dormente acordar com a sensação de que seu coração se partiu durante o sono. Eles tendem sempre a girar em volta de certos temas emocionantes de encontros e despedidas, de uma vida que termina em morte ou de uma morte que é o começo da vida. Deméter perambula por um mundo aflito a procura de uma criança roubada; ísis em vão estende os braços sobre a terra para recolher os membros de Osíris; e há lamentações sobre as colinas por Átis e nos bosque por Adônis. Mistura-se a todas essas lamentações a profunda e mística sensação de que a morte pode ser uma libertação e um apaziguamento; de que uma morte assim nos dá um sangue divino para um rio renovador e de que todo o bem se encontra na reconstituição do dilacerado corpo divino. Podemos na verdade chamar essas coisas de prefigurações, desde que não nos esqueçamos de que prefigurações são sombras. E a metáfora de uma sombra incidental atinge com muita exatidão a verdade que é vital aqui. Pois uma sombra é uma forma; algo que reproduz a forma, mas não a textura. Essas coisas eram algo como a coisa real; e dizer que “eram como” é dizer que eram diferentes. Dizer que algo é como um cachorro é outra maneira de dizer que não é um cachorro; e é nesse sentido de identidade que um mito não é um homem. Ninguém realmente pensava em Ísis como um ser humano; ninguém realmente pensava em Deméter como uma personagem histórica; ninguém pensava em Adônis como o fundador de uma Igreja. Não havia nenhuma ideia de que algum deles houvesse mudado o mundo; mas antes havia a ideia de que sua recorrente morte e vida continham o triste e belo bordão da imutabilidade do mundo. Nenhum deles foi uma revolução, exceto no sentido da revolução do sol e da lua. Todo o significado deles se perde se não virmos que eles significam as sombras que somos nós e as sombras que nós perseguimos. Em certos aspectos sacrificais e comunitários eles naturalmente sugerem que espécie de deus poderia satisfazer aos homens: mas não afirmam que estão satisfeitos. Quem afirmar que eles o fazem não sabe avaliar poesia.
(...)
É total falta de delicadeza para com os famintos provar que a fome é igual à comida. É falta de boa compreensão para com os jovens argumentar que a esperança destrói a necessidade de felicidade. E é absolutamente irreal argumentar que essas imagens na mente, admiradas por inteiro na sua forma abstrata, estavam no mesmo mundo dos homens vivos, de uma sociedade viva, e eram adoradas por serem concretas.
(...)
Nós sabemos das coisas melhor que os intelectuais, mesmo aqueles dentre nós que não são intelectuais, sabemos o que havia naquele grito que foi emitido sobre o morto Adônis e sabemos por que a Grande Mãe fez uma filha casar-se com a morte. Nós entramos mais profundamente nos Mistérios Eleusinos e passamos a um grau mais alto, no qual um portão dentro de um portão guardava a visão de Orfeu. Nós conhecemos o sentido de todos os mitos. Conhecemos o último segredo revelado ao perfeito iniciado. E não é a voz de um sacerdote ou um profeta dizendo: “Essas coisas existem”. É a voz de um sonhador e um idealista gritando: “Por que essas coisas não são possíveis? ”

Fonte: O Homem Eterno, G. K. Chesterton, Editora Mundo Cristão, Tradução: Almiro Pisetta.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Suportar e sorrir

Chesterton - Ortodoxia 

[Gostaria de enfatizar] “as seguintes proposições: primeiro, que algum tipo de fé é necessário em nossa vida até mesmo para melhorá-la; segundo, que algum tipo de insatisfação com as coisas é necessária até mesmo para sentir-se satisfeito; terceiro, que para se ter esse contentamento e descontentamento, ambos necessários, não basta ter o equilíbrio óbvio do estóico. Pois a mera resignação não tem a gigantesca leveza do prazer, nem a orgulhosa intolerância da dor. Há uma objeção vital ao conselho de simplesmente sorrir e suportar. A objeção é que se você simplesmente suportar, você não sorri”.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sobre os críticos da Idade Média

Chesterton - Chaucer versus Steverson

O crítico que condena nossos infelizes pais fala, ao mesmo tempo, sobre luta e escravidão; geralmente expande esta crítica a uma visão de guerra universal; insiste que aqueles homens sangravam por estéreis votos de superstição e lutavam uns com os outros por fantásticas questões de etiqueta; zomba de seus esportes por terem sido rudes e perigosos, e de sua religião, por ter sido militante e repleta de mártires; reclama igualmente da frívola mortalidade das competições e da fanática mortalidade das cruzadas; e então ele resume tudo, num movimento de sublime consistência, dizendo que aqueles homens eram fracos e que temiam a morte”. 

domingo, 9 de outubro de 2011

Bem-vindo à corporação.

Chesterton
O Homem que foi quinta-feira

- É o novo recruta? - perguntou o chefe invisível que parecia estar a par de tudo. - Está bem. Está admitido.

Syme, assombrado, trêmulo, procurou timidamente lutar contra esta sentença irrevogável.

- Mas eu, na verdade, não tenho experiência...

- Ninguém tem experiência alguma da batalha do Armagedom - disse o outro.

- Também não sei se sou capaz...

- Mas você quer e isso basta - retrucou o desconhecido.

- Mas, a verdade - ponderou Syme -, é que não sei de nenhum ofício em que a simples boa vontade seja prova de aptidão.

- Eu sei - disse o outro. - O dos mártires. Eu estou condenado à morte. Passe bem.

Foi assim que ao reaparecer com sua deplorável cartola preta e seu anárquico e deplorável casaco na claridade carmesim do crepúsculo, Gabriel Syme vinha sido feito membro da nova corporação de detetives, fundada para dar combate à grande conspiração.

Ver também "Os policiais filósofos".

domingo, 18 de setembro de 2011

Chesterton vs Nietzsche

No blog do Professor Angueth, um leitor sugeriu que ele confrontasse as ideias de Chesterton e Nietzsche, como se fora um debate. O Professor prontamente acolheu a sugestão e postou em seu blog alguns trechos em que Chesterton combateu as ideias de Nietzsche.

Achei a ideia muito interessante e decidi contribuir. Como o Professor fez um apanhado, principalmente do livro "Hereges", decidi postar mais algumas palavras de Chesterton combatendo as ideias nietzscheanas.

Como disse o Professor Angueth, "Nietzsche morreu em 1900 e Chesterton começou a escrever profissionalmente um pouco depois disso. Assim, ele não poderia ter debatido diretamente com o filósofo alemão. Contudo, ele percebeu bem a natureza maligna de sua filosofia e a debateu com todos os seus defensores, principalmente Shaw e Wells, mas não só". Abaixo segue mais um pouco do que seria esse debate, tomando trechos do livro Ortodoxia:

"Nietzsche começou essa idéia absurda de que os homens buscaram como bem o que agora chamamos de mal. Se fosse assim, não poderíamos falar em ir além ou até mesmo em ficar aquém do bem e do mal. Como você pode ultrapassar o Silva se você estiver caminhando na direção contrária? Você não pode discutir se um povo obteve mais êxito em sentir-se infeliz do que outro em sentir-se feliz. Seria como discutir se Milton era mais puritano do que um porco é gordo".

"O ponto supremo não é saber por que alguém busca determinada coisa, mas o fato de buscá-la. Não disponho aqui de espaço para traçar ou explicar essa filosofia da Vontade. Surgiu, suponho, por intermédio de Nietzsche, que pregou algo chamado de egoísmo. Isso, de fato, era bastante simplório; pois Nietzsche negava o egoísmo pregando-o. Pregar alguma coisa é entregá-la. Primeiro, o egoísta chama a vida de guerra sem compaixão, depois despende o máximo esforço possível para treinar seus inimigos na guerra. Pregar o egoísmo é praticar o altruísmo. Mas como quer que tenha começado, a visão é bastante comum na literatura atual".

"Nietzsche tinha algum talento natural para o sarcasmo: ele sabia escarnecer, embora não soubesse rir; mas há sempre algo incorpóreo e sem peso na sua sátira, simplesmente porque ela não tem nenhum peso de moralidade comum em que se apoiar. O próprio Nietzsche é mais absurdo que qualquer coisa por ele denunciada. Mas, de fato, ele se sustenta muito bem como exemplo típico de todo esse fracasso da violência abstrata. O amolecimento do cérebro que no fim o atingiu não foi um acidente físico. Se Nietzsche não houvesse acabado na imbecilidade, o nietzscheanismo o teria feito. Pensar no isolamento e com orgulho acaba na idiotice. Todos os homens que não passam por um amolecimento do coração devem no mínimo passar pelo amolecimento do cérebro".

"Essa, incidentalmente, é toda a fraqueza de Nietzsche, que alguns estão representando como pensador ousado e forte. Ninguém negará que ele foi um pensador poético e sugestivo; mas foi exatamente o oposto de forte. Não foi de modo algum ousado. Ele nunca colocou suas idéias diante de si com palavras simples e abstratas, como fizeram os vigorosos e destemidos pensadores Aristóteles e Calvino e até mesmo Karl Marx. Nietzsche sempre se evadia de uma questão usando uma metáfora física, como um jovial poeta menor. Ele dizia "além do bem e do mal" porque não tinha a coragem de dizer "melhor que o bem e o mal", ou "pior que o bem e o mal". Se ele houvesse enfrentado o pensamento sem metáforas, teria visto que se tratava de um disparate. Assim, quando ele descreve o seu herói, não ousa dizer "o homem mais puro", ou "o homem mais feliz", ou "o homem mais triste"; pois todas essas expressões são idéias, e as idéias são alarmantes. Ele diz "o homem superior" ou "o super-homem", uma metáfora física, baseada em acrobatas ou alpinistas. Nietzsche é realmente um pensador muito tímido. Realmente não tem a mínima idéia do tipo de homem que ele quer que a evolução produza".


Trarei um pouco mais desse debate retirando trechos de outros livros ainda não traduzido para o português.

Abraços.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O melhor de todos os mundos impossíveis

G. K. Chesterton
The G.K. Chesterton calendar (Cecil Palmer)


Este mundo não deve ser justificado como ele é justificado pelos otimista mecânicos; não deve ser justificado como o melhor de todos os mundos possíveis. Seu mérito não é que ele seja ordenado e explicável; seu mérito é que ele é selvagem e totalmente inexplicável. Seu mérito é precisamente que nenhum de nós poderia ter concebido tal coisa, que nós teríamos rejeitado essa ideia descabida como milagrosa e irracional. Este mundo é o melhor de todos os mundos impossíveis.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Meu lar, meu castelo

Há quase dois anos, postei uma interessante citação de William Pitt, onde enaltecia o valor de nosso lar, dizia ele:

"O lar de um homem é o seu castelo. O homem mais pobre desafia, em sua casa, todas as forças da coroa. A sua cabana pode ser muito frágil, o teto pode tremer, o vento pode soprar entre as portas mal ajustadas, a trombeta pode penetrar, mas o Rei da Inglaterra não pode nela entrar".

Para a minha surpresa, achei um comentário de Chesterton sobre essa citação, que a complementa de forma extraordinária. Comenta Chesterton:

"O homem que disse que a casa de um Inglês é o seu castelo disse muito mais do que ele pensou. O Inglês pensa na sua casa como algo fortificado, e provisionado, e as grandes ameças que vêm sobre ele é o cerne de sua origem romântica. Neste sentido, ele seria mais forte nas noites de inverno mais selvagens, quando o portão trancado e a ponte elevadiça levantada obstrui não somente os de fora, mas também os dentro. A casa do Inglês é quase sagrada, não meramente quando o Rei não pode entrar, mas também quando o Inglês não pode dela sair".

Mera espiritualidade

G. K. Chesterton
The G.K. Chesterton calendar (Cecil Palmer)


Quando a evolução científica foi anunciada, alguns temiam que ela iria incentivar a mera animalidade. Mas ela fez pior: incentivou a mera espiritualidade. Ela ensinou aos homens a pensar que, enquanto eles estavam evoluindo do macaco estavam indo para anjos. Mas você pode evoluir do macaco indo a demônio.

sábado, 20 de agosto de 2011

Fé e Razão

Chesterton

Quando um crítico diz, por exemplo, que a fé manteve o mundo em trevas até que a dúvida levou ao esclarecimento, é ele próprio que fala coisas pela fé; coisas de que ele nunca foi suficientemente esclarecido para poder duvidar. Essa simplificação extremamente rude da história humana é que tem sido ensinada. Eu não o culpo por isso. Apenas quero observar que ele é um exemplo inconsciente das próprias coisas que insulta.

Illustrated London News 13/02/1926

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A história da pré-história

Chesterton
O Homem Eterno

Talvez não se conceda bastante atenção a um caso singular que a ciência dos estudos pré-históricos oferece. Toda a ciência se funda, com efeito, no conjunto admirável de suas conquistas, por um método de acumulação. Todas as invenções mecânicas e a maior parte dos descobrimentos da física deriva da observação completada pela experiência. Ora, bem; não se fabricam homens primitivos. Esta é a grande dificuldade para o conhecimento das nossas origens. Assim, é que chegamos a aperfeiçoar, peça por peça, o aeroplano de nossa invenção, assistindo no jardim, às evoluções de um modelo reduzido feito de bambus e de latas de sardinha; porém, jamais, nesse mesmo jardim, assistiremos a evolução do "elo-perdido". Se cometermos um erro de cálculo, o aeroplano fará, por si mesmo, a prova em sua queda. Porém, se incidirmos num erro de suposição a respeito dos costumes de um dos nossos ancestrais, na selva, por exemplo, não será, de certo, ele quem o demonstrará, deixando-se cair da árvore em que estiver trepado.

É impossível criar o homem de Weanderthal em uma gaiola, como um galo, com o objetivo de descobrir se ele pratica a antropofagia e o rapto nupcial. É absurda a idéia de manter uma manada de homens de Cromagnon, afim de estudar as manifestações do instinto gregário. Se um pássaro se comporta de um modo insólito, é bem possível que adivinhemos os costumes de outros pássaros; mas, de um crânio ou de um fragmento de crânio a imaginação mais científica não pode deduzir todo um vale de Josafat.

Fala-se muito da paciência científica. Da impaciência é que se deveria falar. O mais empírico dos antropologistas está nas mesmíssimas condições que o mais prudente dos arqueólogos: é-lhe preciso ater-se a um farrapo do passado, sem esperança de, jamais, vê-lo aumentar entre suas mãos. Manuseia a porção dos seus descobrimentos com a mesma energia feroz com que o homem das cavernas manuseava o seu pedaço de silex, e por idênticas razões: é o seu único patrimônio, o seu único utensílio e sua única arma; arma que manejará com uma espécie de fanatismo desesperado, ao qual não nos acostumaram, ainda, os sábios do laboratório. Estou seguro de que mais de um professor superaria a mais de um cão na arte de arreganhar os dentes em defesa do seu osso.

Contemplemos a sua obra. Ante a dificuldade de criar um macaco e de vê-lo transformar-se em ser humano, nosso homem não se contentará em dizer o que nós diríamos de bom grado: que uma evolução desse gênero se mostra bastante verossímil. Não, em vez disso, ele exibe a sua pequena lasca ou sua minúscula coleção de ossos e deduz, para maravilhar as multidões, toda uma série de revelações surpreendentes. Assim, por exemplo, em Java encontrou-se os restos de um crânio que era mais estreito do que o nosso, pelo que se pode deduzir; um pouco mais distante se encontrou um fêmur e, dispersos pelas cercanias, alguns dentes que não eram humanos. Se o todo proviesse de um mesmo indivíduo, o que está ainda por se averiguar, a idéia que poderíamos fazer de tal indivíduo não seria, talvez, menos incerta. Entretanto, tudo bastou à ciência popular para fabricar um personagem completo, terminado dos pés à cabeça, sem carência dos mínimos detalhes e que recebeu, sem demora, um nome próprio, como toda personagem histórica que se respeite.

O público falou, assim, de Petecântropo, como se fala de Richelieu, de Fox ou de Napoleão. As enciclopédias ilustradas publicaram sua efígie e nós temos dele um excelente desenho, de tão minucioso realismo, que não se pode duvidar de que lhe foram contados, um por um, até os fios de cabelo. Quem suspeitaria ao ver aquelas expressões fisionômicas, tão poderosamente acentuadas, e aquele olhar abatido, que são o retrato de um fêmur ou de um pedaço de abóboda craniana e de um punhado de dentes? Seu caráter e seus costumes são, igualmente, de notoriedade pública.

[Ora], ignoro tudo o que se refere ao homem pré-histórico, pela simples razão de que é pré-histórico. Por isso que não é logicamente possível existir uma história da pré-história, expressão tão falha de razão, que só os racionalistas podiam inventá-la. Um pregador que qualificasse o dilúvio como antidiluviano surpreenderia, talvez, alguns sorrisos furtivos no rosto de seus ouvintes. Um bispo faria bem não classificando Adão entre os pré-adâmicos. Mas que um historiador nos fale das épocas pré-históricas da História, não nos surpreende na medida que deveria.

O que se quer dizer, sem dúvida, o que se pode dizer é que a humanidade é mais velha do que a História e que a civilização é anterior às crônicas escritas. O homem, de fato, cultivou várias artes antes da escritura, do que não se deve deduzir que, até então, ele fosse um consumado bruto.

Fazem-se, em um tom tão categórico e soberbo, afirmações gratuitas , que é preciso, para examiná-las, uma virtude crítica que ultrapasse o comum.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O tiro que sai pela culatra

Chesterton
Ortodoxia

Nesse trecho do livro Ortodoxia, Chesterton mostra com clareza que, com a intenção de negar as bases do cristianismo, os céticos acabaram negando as bases de toda coerência e da vida social.

Há homens que destroem a si mesmos e destroem a própria civilização se também puderem destruir essa fantástica história [a história do cristianismo].

Esse é o fato supremo e mais aterrador envolvendo a fé: que seus inimigos usarão qualquer arma contra ela, as espadas que cortam os próprios dedos e as lenhas que queimam as próprias casas. Homens que começam a combater a Igreja em benefício da liberdade e da humanidade terminam jogando fora a liberdade e a humanidade só para poderem com isso combater a Igreja. Não é exagero. Eu poderia encher um livro com exemplos disso.

O sr. Blatchford iniciou, como um demolidor bíblico comum, querendo provar que Adão não teve culpa em seu pecado contra Deus; manobrando para defender essa ideia, ele admitiu, como mera questão secundária, que todos os tiranos, de Nero ao rei Leopoldo, não tiveram culpa em nenhum de seus pecados contra a humanidade.

Conheço um homem que tem tal paixão por provar que ele não terá uma existência pessoal depois da morte que recorre à tese de que ele não tem uma existência pessoal agora. Invoca o budismo e diz que todas as almas desaparecem uma na outra. Para provar que não pode ir para o céu ele prova que não pode ir para a cidade de Hartle-pool.

Conheci pessoas que protestavam contra a educação religiosa com argumentos contra qualquer tipo de educação, dizendo que a mente da criança deve crescer livre ou que os mais velhos não devem ensinar aos jovens.

Conheci pessoas que demonstraram que não poderia existir nenhum julgamento divino mostrando que não pode haver nenhum julgamento humano, nem mesmo em prol de objetivos práticos. Elas queimaram o próprio trigo para atear fogo à Igreja; destruíram as próprias ferramentas para destruí-la; qualquer pedaço de pau era bom para bater nela, mesmo que fosse o último pedaço de sua mobília desmantelada.

Não admiramos, mal desculpamos o fanático que destroça este mundo pelo amor do outro. Mas que devemos dizer do fanático que destroça este mundo por causa do ódio pelo outro? Ele sacrifica a própria existência da humanidade à não-existência de Deus. Oferece suas vítimas não para o altar, mas simplesmente para afirmar a inutilidade do altar e o vazio do trono. Ele está disposto a destruir até mesmo aquela ética primária pela qual todas as coisas vivem, em prol de sua estranha e eterna vingança contra alguém que jamais sequer viveu. E, no entanto, a coisa pende dos céus, incólume. Seus opositores só conseguem destruir tudo aquilo a que eles mesmos com justiça dão valor. Não destroem a ortodoxia; destroem apenas o sentido comum e político de coragem. Não provam que Adão não foi responsável perante Deus; como poderiam fazê-lo? Provam apenas (a partir de suas premissas) que o czar não é responsável perante a Rússia. Não provam que Adão não deveria ter sido punido por Deus; provam apenas que o patrão explorador mais próximo não deveria ser punido pelos homens. Com suas dúvidas orientais sobre a personalidade, não nos dão certeza de que não teremos uma vida pessoal depois da morte; apenas nos dão certeza de que não teremos uma vida muito divertida ou completa aqui.

Não é apenas verdade que a fé é a mãe de todas as energias deste mundo, mas é também verdade que os inimigos dela são os pais de toda a confusão do mundo. Os secularistas não destruíram coisas divinas; destruíram coisas seculares, se isso servir de algum conforto para eles. Os Titãs não escalaram o céu; mas devastaram o mundo.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A antiguidade da civilização

Chesterton

Em um lugar escondido da costa jônica que dá frente a Creta e ao Arquipélago, elevava-se uma cidade, que chamaríamos, hoje, povoação fortificada. Chamava-se Ilion; depois, chamou-se Tróia, e seu nome vibra para sempre na memória dos homens. Um poeta que foi, talvez, mendigo e cantor ambulante, sem dúvida iletrado, e que a lenda apresenta como cego, compõe um poema, cujo assunto era a guerra que os gregos fizeram a esta cidade para reconquistar a mais bela mulher do mundo.


Que a mais bela mulher do mundo tenha habitado essa aldeia pode parecer lendário. Que o mais formoso poema do mundo fosse inventado por um homem, que não vira mais que essa aldeia, é um fato histórico. Assegura-se, em verdade, que a obra pertence ao período em que a cultura estava em seu ocaso. Se assim é, eu pergunto: que produziria, então, em seu apogeu?


Ler o texto completo em Chestertonbrasil.org

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Chesterton é inconfundível

Agnon Fabiano

Estava lendo um trecho de um dos livros de Chesterton que o próprio título já é um paradoxo, chama-se "Enormes Minúncias" (livro em espanhol). E logo no primeiro parágrafo, um paradoxo após outro:

"Não direi que esta história é verdadeira - porque, como se irá comprovar, toda ela é verdade e nada tem de história. Não tem nem explicação, nem conclusão; é, à semelhança das maioria das coisas que encontramos ao longo da vida, um fragmento daquilo que seria intensamente excitante, se não fosse demasiado grande para ser visto. É que a perplexidade da vida resulta de nela existirem demasiadas coisas interessantes para que nos possamos interessar apropriadamente por qualquer uma delas."

Além de todo aprendizado, além de todo bom-senso (como disse C. S. Lewis, Chesterton é o mais sensato de todos!), além de toda beleza literária e das idéias, divirto-me ao ler Chesterton. O Príncipe dos Paradoxos literalmente me ensina e me diverte com suas "tiradas" geniais, com seus pensamentos e com seus insights. Os trocadilhos paradoxais são estonteantes. Seu estilo é inconfundível.


Insights chestertonianos

Chesterton

A Ilíada só é grande porque nela toda a vida é uma batalha; a Odisséia só é grande porque nela toda a vida é uma jornada.

[Os modernos] pensam que o objetivo de abrir as mentes é simplesmente abri-las, enquanto eu estou absolutamente convencido de que o objetivo de abrir a mente, como o de abrir a boca, é fechá-la de novo com algo sólido. (The Flyinng Inn, 1914)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Novo site Chesterton Brasil



É com muita satisfação que noticio um novo projeto: trata-se do site www.chestertonbrasil.org, já disponível à todos aqueles que têm o desejo de conhecer cada vez mais esse grande homem. É indiscutível o valor de Chesterton para o Brasil, um país dominado por muitos problemas de cunho filosófico. A leitura de Chesterton é um remédio pra alma, revigora o intelecto e apraz a inquetação por saber que todos nós temos. Façam bom proveito!


"Criamos este site com o objetivo de reunir e difundir o pensamento de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) no Brasil. Chesterton é um dos maiores pensadores católicos do século XX e, infelizmente, por diversos motivos, desconhecido em nossa Terra de Santa Cruz. Diante disso, e da inexistência de uma sociedade Chestertoniana no Brasil, resolvemos lançar a idéia de no futuro próximo termos uma Sociedade Chestertoniana Brasileira, como as Inglesas, Americanas, Argentina e Italiana.

Enquanto isso, desejamos lhe oferecer o que há de melhor sobre Chesterton prioritariamente em língua portuguesa. Reunimos neste site artigos, traduções, vídeos, áudios, frases e trechos de suas obras, imagens etc. com o intuito de possibilitar um contato com a vida e pensamento desse gênio".

Fonte: www.chestertonbrasil.org

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sobre Chesterton

Jorge Luis Borges
"Outras Inquisições"


Because He does not take away The terror from the tree...

CHESTERTON: A Second Childhood.

Edgar Allan Poe escreveu contos de puro horror fantástico ou de pura bizarrerie; Edgar Allan Poe foi o inventor do conto policial. Isso não é menos certo que o fato de ele não ter combinado os dois gêneros. Não impôs ao cavalheiro Augusto Dupin a tarefa de precisar o antigo crime do Homem das Multidões ou de explicar a aparição que fulminou o mascarado príncipe Próspero na câmara negra e escarlate. Chesterton, ao contrário, prodigalizou com paixão e felicidade esses tours de force. Cada um dos textos da Saga do padre Brown apresenta um mistério, propõe explicações de tipo demoníaco ou mágico para, no fim, substituí-las por outras que são deste mundo. A mestria não esgota a virtude dessas breves ficções; nelas creio notar uma cifra da história de Chesterton, um símbolo ou espelho de Chesterton. A repetição de seu esquema ao longo dos anos e dos livros (The Man Who Knew Too Much, The Poet and the Lunatics, The Paradoxes of Mr. Pond) parece confirmar que se trata de uma forma essencial, não de artifício retórico. Estes apontamentos são uma tentativa de interpretar essa forma.

Antes, convém reconsiderar alguns fatos de excessiva notoriedade.

Chesterton foi católico, Chesterton acreditou na Idade Média dos pré-rafaelistas ("Of London, small and white, and clean”), Chesterton pensou, como Whitman, que o mero fato de ser é tão prodigioso que nenhuma desventura deve eximir-nos de uma espécie de cômica gratidão. Tais crenças podem ser justas, mas o interesse que despertam é limitado; supor que elas esgotam Chesterton é esquecer que um credo é o último termo de uma série de processos mentais e emocionais e que o homem é toda a série. Neste país, os católicos exaltam Chesterton, os livre-pensadores o negam. Como todo escritorque professa um credo, Chesterton é julgado por causa disso, é reprovado ou aclamado por isso. Seu caso é semelhante ao de Kipling, que as pessoas sempre julgam em função do Império Britânico.

Poe e Baudelaire, assim como o Urizen atormentado de Blake, propuseram-se criar um mundo de espanto; é natural que sua obra seja fértil em formas do terror. Creio que Chesterton não teria tolerado a imputação de ser um urdidor de pesadelos, um monstrorum artifex (Plínio, XXVIII, 2), mas ele indefectivelmente incorre em freqüentes imagens atrozes. Pergunta se porventura um homem tem três olhos, ou um pássaro três asas; fala, contra os panteístas, de um morto que descobre no Paraíso que os espíritos dos coros angelicais têm sempre seu próprio rosto[1]; fala de uma prisão de espelhos; fala de um labirinto sem centro; fala de um homem devorado por autômatos de metal; fala de uma árvore que devora os pássaros e que, em vez de folhas, dá penas; imagina (The Man Who Was Thursday, VI) que nos confins orientais do mundo talvez exista uma árvore que já é mais, e menos, que uma árvore, e, nos ocidentais, algo, uma torre, cuja arquitetura, por si só, é malvada. Define o próximo pelo distante, e até pelo atroz; se fala dos próprios olhos, nomeia-os com palavras de Ezequiel (1, 22), "um terrível cristal"; se da noite, aperfeiçoa um antigo horror (Apocalipse 4, 6) para chamá-la "um monstro feito de olhos". Não menos ilustrativa é a narração How I Found the Superman. Chesterton fala com os pais do Super-Homem; perguntados sobre a beleza do filho, que não sai de um quarto escuro, estes lembram-lhe que o Super-Homem cria seu próprio cânone e por ele deve ser medido ("Nesse plano, ele é mais belo que Apolo. Visto de nosso plano inferior, claro que..."); depois admitem que não é nada fácil estreitar sua mão ("O senhor sabe; a estrutura é muito outra"); depois são incapazes de precisar se ele tem cabelo ou penas. Morre vítima de uma corrente de ar, e alguns homens retiram um ataúde que não tem forma humana. Chesterton relata essa fantasia teratológica em tom de zombaria. Tais exemplos, que seria fácil multiplicar, provam que Chesterton se defendeu de ser Edgar Allan Poe ou Franz Kafka, mas que algo no barro de seu eu propendia ao pesadelo, algo secreto, cego e central. Não por acaso ele dedicou suas primeiras obras à defesa de dois grandes artífices góticos: Browning e Dickens; não por acaso repetiu que o melhor livro saído da Alemanha era o dos contos de Grimm. Denegriu Ibsen e defendeu (talvez indefensavelmente) Rostand, mas os Trolls e o Fundidor de Peer Gynt eram da mesma matéria de seus sonhos, "the stuff his dreams were made of". Esse desacordo, essa precária sujeição de uma vontade demoníaca definem a natureza de Chesterton. Emblemas dessa guerra são, para mim, as aventuras do padre Brown, cada uma das quais pretende explicar, mediante a pura razão, um fato inexplicável. Por isso afirmei, no parágrafo inicial desta nota, que as ficções de Chesterton eram cifras de sua história, símbolos e espelhos de Chesterton. Isso é tudo, com a ressalva de que a "razão" à qual Chesterton subordinou suas imaginações não era exatamente a razão, mas a fé católica, ou seja, um conjunto de imaginações hebréias subordinadas a Platão e a Aristóteles.

Recordo duas parábolas opostas. A primeira consta no primeiro volume das obras de Kafka. E a história do homem que pede para ter acesso à lei. O guardião da primeira porta responde que dentro há muitas outras e que não há sala que não esteja custodiada por um guardião, cada qual mais forte que o anterior. O homem senta-se para esperar. Passam-se os dias e os anos, até que ele morre. Em sua agonia, pergunta: "Será possível que nos anos desta minha espera ninguém além de mim tenha querido entrar?". O guardião responde: "Ninguém quis entrar porque só a ti se destinava esta porta. Agora vou fechá-la". (Kafka comenta essa parábola, complicando-a ainda mais, no nono capítulo de O Processo.) A outra parábola consta no Pilgrim’s Progress, de Bunyan. As pessoas olham com cobiça um castelo defendido por muitos guerreiros; junto à porta há um guardião com um livro para registrar o nome de quem for digno de entrar. Um homem intrépido achega-se ao guardião e diz: "Anote meu nome, senhor". Depois tira sua espada e arremete contra os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas, até abrir passagem em meio ao fragor e entrar no castelo.

Chesterton dedicou a vida a escrever a segunda parábola, mas algo nele sempre tendeu a escrever a primeira.



[1] Amplificando um pensamento de Attar ("Em toda a parte só vemos Teu rosto"), Djalal al-Din Rumi compôs alguns versos, depois traduzidos por Rückert (Werke, IV, 222), em que se diz que nos céus, no mar e nos sonhos há Um Só e em que se louva esse único por ter reduzido à unidade os quatro briosos animais que puxam a carruagem dos mundos: a terra, o fogo, o ar e a água.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A troca de valores

Chesterton
Tremendas Trivialidades[1]

De todos os sinais de modernidade que se parecem traduzir em algum tipo de decadência, nenhum é mais ameaçador e perigoso do que a exaltação de normas de conduta pequenas e secundárias, à custa das grandes e primárias, à custa dos laços eternos e da trágica moralidade humana.

Desse modo, costuma considerar-se mais injurioso acusar um homem de mau gosto do que de má ética. Hoje em dia, já não se associa a limpeza à santidade, visto que a limpeza se converteu em algo essencial, ao passo que a santidade se converteu em algo ofensivo.

(...) O grande perigo para a nossa sociedade está em que todo o seu mecanismo se possa tornar cada vez mais fixo, à medida que o espírito se torna mais inconstante.

Os pequenos atos de um homem deveriam ser livres, flexíveis, criativos; o que deveria permanecer inalterado são os seus princípios, os seus ideais. Mas conosco o contrário é que é a verdade: os nossos pontos de vista alteram-se constantemente, mas o nosso almoço permanece inalterado.

[1] Lançamento em Portugal pela editora Alêtheia. Há também uma antiga edição em espanhol sob o título "Enormes Minúncias".

sábado, 20 de novembro de 2010

A violência da razão

Chesterton, Doze tipos.

A razão é sempre uma espécie de força bruta; aqueles que recorrem à cabeça ao invés do coração, ainda que pálidos e polidos, são necessariamente homens de violência. Falamos em "tocar" o coração de um homem, mas nada podemos fazer à sua cabeça senão golpeá-la.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

E fácil ser louco; é fácil ser herege

Chesterton

E fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo — isso teria sido de fato simples.

É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.

Ortodoxia