“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A educação e a sensibilidade

C. S. Lewis
A Abolição do Homem

[Alguns] professores vêem o mundo ao redor dominado pela propaganda emotiva – aprenderam com a tradição que a juventude é sentimental – e concluem que a melhor coisa a fazer é fortalecer a mente dos jovens contra a emotividade. A minha própria experiência como professor me ensina justamente o contrário. Pois, para cada aluno que precisa ser resguardado de um leve excesso de sensibilidade, existem três que precisam ser despertados do sono da fria vulgaridade. O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos. Ao sufocar a sensibilidade dos nossos alunos, apenas conseguiremos transformá-los em presas mais fáceis para o ataque do propagandista. Pois a natureza agredida há de se vingar, e um coração duro não é uma proteção infalível contra um miolo mole.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Fui criado para um outro mundo

C. S Lewis
O Peso de Glória

"Se descubro em mim um dese­jo que nenhuma experiência deste mundo pode satis­fazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo." (CSL)

Quase toda a educação procura silenciar essa voz tímida e persistente dentro de nós: quase todas as filosofias dos nossos tempos foram elaboradas para convencer-nos de que o bem do homem encontra-se nesta terra. Contudo, é curioso como certas filosofias de progresso ou evolução criativa acabem por atestar, relutantemente, que o nosso verdadeiro alvo esteja em outro lugar.

Note a maneira como pretendem convencê-lo de que a terra é seu lar. Começam tentando persuadi-lo de que a terra pode transformar-se em céu, driblando assim a nossa sensação de exílio. Depois dizem que esse feliz acontecimento situa-se num futuro ainda muito distante, driblando assim o nosso conhecimento de que nossa pátria não está presente, aqui e agora. Finalmente, para que o nosso anseio por alguma coisa transtemporal não nos acorde, estragando tudo, valem-se da retórica à disposição, para conservar bem distante da nossa mente o pensamento de que, ainda que a felicidade que nos prometem pudesse ser uma realidade na terra, cada geração, inclusive a última de todas, a perderia na morte, e toda sua história seria nada, deixaria até de ser história, para todo o sempre. Assim, justifica-se todo o absurdo que Shaw põe no discurso final de Lilith, bem como a teoria de Bergman, afirmando que o élan vital é capaz de superar todos os obstáculos, talvez até a morte — como se pudéssemos crer que qualquer desenvolvimento social ou biológico em nosso planeta pudesse protelar a senilidade do sol ou anular a segunda lei da termodinâmica.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Igualdade

C. S. lewis
(O Peso da Glória)

Igualdade é um termo quantitativo e, por conseguinte, muitas vezes não tem relação alguma com o amor. A autoridade exercida com humildade e a obediência aceita com alegria são as diretrizes pelas quais vive o nosso espírito.

"Se eu vejo, creio!"

Esse é um trecho de uma carta do diabo Fitatuso (personagem de C. S. Lewis do livro "Cartas do Diabo ao seu aprendiz") respondendo à correspondência de seu aprendiz e sobrinho e ensinando-o como ele deve agir no seu labor diário de enganar o homem. O "Inimigo", a quem ele se refere é Deus e "nosso Pai lá de Baixo" é Satanás.

Parta do princípio que sua vítima já se acostumou desde criança a ter uma dúzia de filosofias diferentes dançando em sua cabeça. Ele não usa o critério de "VERDADEIRO" ou "FALSO" para conferir cada doutrina que lhe apareça (seja do Inimigo ou nossa). Ao invés disso, ele verifica se a doutrina é "Acadêmica" ou "Prática", "Antiquada" ou "Atual", " Aceitável" ou "Cruel". O jargão e a expressão feita (e não o argumento lógico) são seus melhores aliados para mantê-lo longe do Inimigo. Não perca tempo tentando levá-lo a concluir que o Materialismo seja verdadeiro (sabemos que não é). Faça-o pensar que ele é Forte, Violento ou Corajoso - ou ainda, que é a Filosofia do Futuro! Este é o tipo de coisas que lhe despertarão a atenção.

Percebo que você tem intenções produtivas, mas há um problema muito grande quando tentamos persuadir o paciente a passar para nosso lado pelo emprego de argumentos e lógica: isto conduz toda a luta para o campo do Inimigo, que para azar nosso também sabe argumentar (e melhor do que nós). Por outro lado, no que diz respeito à propaganda prática (ainda que falsa) que lhe sugeri, Ele tem se mostrado por séculos bem inferior ao Nosso Pai lá de Baixo. Pela pura argumentação, você despertará o raciocínio do paciente; uma vez que a razão dele desperte, quem poderia prever o resultado? Veja que perigo! Mesmo que uma cadeia de raciocínio lógico possa ser torcida de modo a nos favorecer, isso tende a acostumar o paciente ao hábito fatal de questionar as coisas, analisando as mesmas com visão geral, e desviando-se das experiências ditas "concretas", que na verdade são apenas experiências sensíveis e imediatas.

Sua maior ocupação deve ser portanto a de prender a atenção da vítima de modo a jamais se libertar da corrente do "Se eu vejo, creio!". Ensine-o chamar esta corrente "Vida Real", e jamais deixe-o perguntar a si próprio o que significa "Real".

sábado, 16 de maio de 2009

Os adultos e os contos de fadas

C. S. Lewis

Hoje em dia, a crítica moderna usa o adjetivo
"adulto" como marca de aprovação. Ela é hostil ao que denomina "notalgia" e tem absoluto desprezo pelo que se chama de "Peter Panteísmo". Por isso, em nossa época, se um homem de cinqüenta e três anos admite ainda adorar anões, gigantes, bruxas e animais falantes, é menos provável que ele seja louvado por sua perpétua juventude do que seja ridicularizado e lamentado por seu retardamento mental.

[Mas] os críticos para quem a palavra “adulto” é um termo de aplauso, e não um simples adjetivo descritivo, não são nem podem ser adultos. Preocupar-se em ser adulto ou não, admirar o adulto por ser adulto, corar de vergonha diante da insinuação de que se é infantil: esses são sinais característicos da infância e da adolescência. E, na infância e na adolescência, quando moderados, são sintomas saudáveis. É natural que as coisas novas queiram crescer. Porém, quando se mantém na meia-idade ou mesmo na juventude, essa preocupação em “ser adulto” é um sinal inequívoco de retardamento mental. Quando eu tinha dez anos, eu lia contos de fadas escondido e ficava envergonhado quando me pilhavam. Hoje em dia, com cinqüenta anos, leio-os abertamente. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser infantil e o desejo de ser muito adulto.

A visão moderna, a meu ver, envolve uma falsa concepção de crescimento. Somos acusados de retardamento porque não perdemos um gosto que tínhamos na infância. Mas, na verdade, o retardamento consiste não em recusar-se a perder as coisas antigas, mas sim em não aceitar coisas novas. Hoje gosto de vinho branco alemão, coisa de que eu tenho certeza de que não gostaria quando criança; mas não deixei de gostar de limonada. Chamo esse processo de crescimento ou desenvolvimento, porque ele me enriqueceu: se antes eu tinha um único prazer, agora tenho dois. Porém, se eu tivesse de perder o gosto por limonada para admitir o gosto pelo vinho, isso não seria crescimento, mas simples mudança. Hoje em dia já não gosto somente de contos de fadas, mas também de Tolstói, Jane Austen, Trollope, e chamo isso de crescimento; se tivesse precisado deixar de lado os contos de fadas para apreciar os romancistas, não diria que cresci, mas que mudei.

domingo, 10 de maio de 2009

A falácia do "Argumento do tamanho"

Por várias vezes vi o "argumento do tamanho" ser usado para sustentar a ideia de que Deus não existe. É um dos argumentos mais utilizados para a negação de Deus. É mais ou menos assim: "Por que um Deus se preocuparia especificamente com um ser ínfimo como o homem, que vive num planeta entre milhões de outros existentes?" Em outras palavras: "por que um certo Deus escolheu esse planeta entre milhões de outros planetas e por que se preocupou com o homem desta terra em meio da possibilidade de haver outras vidas por aí a fora?". Isso é o suficiente para que digam que essa história de Deus é uma história sem sentido.

As palavras de Lewis e Chesterton são suficientes para nos mostrar por que esse argumento é falacioso.

Lewis:

O argumento do tamanho descansa na suposição de que as diferenças de tamanho devem coincidir com as diferenças de valor, pois, de outro modo, não há nenhum razão para pensarmos que pelo fato de a terra ser pequena e criaturas que habitam nela serem ainda menores, não poderem ser as coisas mais importantes do universo, porque este contém milhões e milhões de estrelas e outros planetas. Esta suposição é racional ou é emocional?

Vejo, como qualquer outro vê, o absurdo de supor que uma galáxia seja menos importante, aos olhos de Deus, que um homem. Porém me dou conta de que não vejo igualmente como absurdo supor que um homem mais baixo possa ser mais importante do que um homem mais alto, nem que um homem possa ser mais importante que uma árvore [que é maior que ele] ou que o cérebro seja mais importante que as pernas. Em outras palavras o sentimento de absurdo surge somente se as diferenças de tamanho são muito grandes. Mas quando uma relação é percebida pela razão, ela é válida universalmente. Se o tamanho e o valor tiverem alguma conexão real, as pequenas diferenças de tamanho seriam acompanhadas de diferenças de valor tão claramente como as grandes diferenças de tamanho são acompanhadas por grandes diferenças de valor. Porém, nenhum homem sensato diria que é assim que acontece. Eu não creio que um homem mais alto seja um pouco mais importante do que um homem mais baixo. Eu não reconheço que as árvores têm uma ligeira superioridade em relação aos homens. Ao tratar com pequenas diferenças de tamanho, percebo que não há relação alguma com o valor. Por isso, concluo que a importância atribuída às grandes diferenças de tamanho não é um assunto da razão, senão da emoção [....]

Somos poetas inveterados. Quando uma quantidade é muito grande, deixamos de vê-la como mera quantidade. Nossa fantasia desperta. Em vez de quantidade, agora temos uma qualidade: o sublime.

Em certo sentido, o poder que o universo tem de nos intimidar está em nós mesmos. Para uma mente que não compartilhe de nossas emoções e que careça de nossas energias imaginativas, o argumento do tamanho será completamente insensato. Os homens olham com reverência para o céu estrelado, mas os macacos não. O silêncio do espaço eterno aterrorizava Pascal, porém foi a grandeza de Pascal que colocou o espaço em situação de espantá-lo. Quando a grandeza do universo nos assusta, estamos assustados, quase literalmente, por nossas próprias sombras, pois os anos-luz e os bilhões de séculos são mera aritmética até que caiam sobre eles a sombra do homem, o poeta, o criador de fantasias [....] Em certo sentido, a grande nebulosa de Andrômeda deve sua grandeza a um pobre homem.

*************

Chesterton:

Se o simples tamanho prova que o homem não é a imagem de Deus, então a baleia poderia ser a imagem divina; uma imagem um tanto disforme; o que se poderia chamar de um retrato impressionista. É totalmente inútil argumentar que o homem é pequeno se for comparado ao cosmos; pois o homem sempre foi pequeno comparado à árvore mais próxima.

Segundo essa gente, o cosmos era uma coisa só porque tinha uma regra uniforme. Só que (diriam eles), mesmo sendo uma coisa só, ele é também a única coisa que existe. Por que, nesse caso, alguém deveria preocupar-se tanto em chamá-lo de grande? Não existe nada que possamos comparar com ele.

Será igualmente sensato chamá-lo de pequeno. Alguém pode dizer: "Eu gosto deste vasto cosmos, com sua multidão de estrelas e inúmeras variedades de criaturas." Mas, se esse é o ponto, por que alguém não deveria dizer: "Eu gosto deste pequeno e aconchegante cosmos, com seu decente número de estrelas e essa elegante provisão de vida que é do meu agrado"? Uma apreciação é tão boa quanto a outra; as duas são meros sentimentos. É um mero sentimento alegrar-se porque o Sol é maior do que a Terra; é um sentimento tão sensato como alegrar-se pelo fato de que o Sol não é maior do que é. Alguém escolhe ter uma emoção acerca da grandeza do mundo; por que ele não deveria escolher ter uma emoção acerca de sua pequenez?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Antony Flew fala de C. S. Lewis


Antony Flew, considerado o principal filósofo dos últimos cem anos, passou mais de cinquenta defendendo o ateísmo. Nesse período, ninguém conseguiu expor as teorias do ateísmo de forma tão completa, original e sistemática como ele fez. O nome de Flew passou a ser associado ao moderno ateísmo em 1950, com o ensaio entitulado Theology and Falsification, que se tornou a publicação mais reimpressa do século XX. No entanto, ao continuar investigando o tema, ele reviu seus conceitos.

Flew, participou do Socratic Clube, um grupo que era, realmente, "o centro do que ainda havia de vida intelectual de Oxford no tempo de guerra. O clube era um fórum onde aconteciam acalorados debates entre ateístas e cristãos". De 1942 a 1954, seu presidente foi C. S. Lewis. A exortação "devemos seguir o argumento até onde ele nos levar", atribuída a Sócrates, era o "brasão" do clube e foi citado por Lewis na primeira edição do Socratic Digest.

Em seu livro "Deus existe", Flew dá testemunho da coragem, da honestidade e da intelectualidade de C. S. Lewis. Diz ele que "é de fato um paradoxo que meu primeiro argumento em favor do ateísmo tenha sido originalmente apresentado em uma reunião do Socratic Club presidida por um dos maiores defensores do cristianismo do século passado, C. S. Lewis. [....] Lewis foi, certamente, o mais eficiente defensor do cristianismo da segunda metade do século XX. [....] Muitos dos maiores ateístas entraram em conflito com Lewis e seus companheiros cristãos".

Flew sistematizou a desenvolveu a maior parte dos fundamentos do ateísmo. Por essa razão, atualmente ele sofre duras críticas por parte dos ateus, pelo fato de ter "revisto seus conceitos" e, hoje, declarar que existe um Deus.

domingo, 3 de maio de 2009

O sofrimento humano

C. S. Lewis

As criaturas causam sofrimento ao nascer, vivem infligindo sofrimento, e em sofrimento a maior parte delas morre. Na mais complexa de todas as criaturas, o homem, apresenta-se ainda uma outra qualidade que chamamos de razão. Ela permite ao homem antever o próprio sofrimento - que, a partir de então, é precedido de aguda aflição mental - e prever a própria morte enquanto anseia intensamente permanecer vivo... Sua história é, em grande medida, um registro de crimes, guerras, doenças e terror, entremeados da felicidade mínima necessária para lhes conceder, enquanto durar, um receio aflitivo de sua perda e, quando esta acontecer, a pungente tristeza da lembrança.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Paradoxo da coragem


Chesterton foi o único que conheço que percebeu o paradoxo da coragem. Dizia ele que a coragem é quase uma contradição em termos, significa “um forte desejo de viver sob a forma de uma grande disposição para morrer”. Já vimos catástrofes de pessoas que saltaram de cima de prédios em chamas, homens que se precipitaram em penhascos e outros que enfrentaram feras, para salvarem suas vidas. Sob um desejo grande de viver, dispuseram-se a morrer. Em muitos casos, só se escapa da morte andando a um centímetro dela.

“Um soldado cercado por inimigos, se quiser achar uma saída, precisa combinar um forte desejo de viver com uma estranha despreocupação com a morte. Ele não deve simplesmente agarrar-se à vida, pois então será covarde — e não escapará. Ele não deve simplesmente aguardar a morte, pois então será suicida — e não escapará. Ele deve buscar a vida num espírito de furiosa indiferença diante dela...”

Nos casos mais extremos, a salvação consiste em não desejar salvar-se com demasiado desespero. “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á [....] (Marcos 8:35)”. O final deste mesmo versículo já é o inverso: “Quem perder a sua vida, salva-la-á”. Significa dispor-se a morrer para salvar-se. Chesterton faz alusão a estas palavras. Diz ele, a respeito de seu personagem, dependurado há vários metros de altura: “Lembrava-se de ter ouvido muitas vezes estas palavras: 'Quem perder a sua vida, salva-la-á.' Lembrava-se, com uma espécie de lástima, de que por elas sempre entendera que quem perdesse a vida corporal salvaria a vida espiritual. Agora sabia uma verdade já sabida de todos os lutadores, caçadores e alpinistas. Sabia que até a sua vida corporal só poderia salvar-se graças a uma forte disposição para perdê-la [....] Talvez encontrasse onde apoiar o pé ao descer a tremenda fachada, desde que não se preocupasse se tais apoios existiam ou não”.

C. S. Lewis, com muita agudeza, percebeu, parece-me, a essência desse paradoxo: “Numa batalha ou numa escalada de montanha, muitas vezes há uma manobra que exige muita coragem; mas é ela também que, no final, constitui o movimento mais seguro. Se você optar por outro curso de ação, ver-se-á horas depois num perigo muito maior. O caminho do covarde é também o caminho mais perigoso”.

Marcos 8:35 é uma orientação para o dia-a-dia de marinheiros e sodados. Poderia ser estampado no livro de orientações ou de treinamentos para escaladores de montanhas, mergulhadores, aventureiros e paraquedistas.

terça-feira, 17 de março de 2009


"Eu era um solteirão tão inveterado, que não pude evitar a sensação de estar fazendo uma travessura."*

*Comentário de C. S. Lewis a respeito de sua lua-de-mel, aos 60 anos, com Joy Davidman, sua primeira e única esposa, que faleceria dois anos mais tarde.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Desejo sexual x Eros

O desejo sexual é o "amor" que anseia pela auto-satisfação. C. S. Lewis descreve esse desejo como o de um homem buscando um prazer para qual a mulher é apenas uma peça necessária para realizá-lo. O quanto ele realmente gosta dela pode ser descoberto cinco minutos depois de ter obtido o que deseja, "ninguém guarda o maço de cigarros depois de tê-los fumado", diz Lewis.

Luxúria é sua pior definição e, na melhor das hipóteses, o desejo sexual é a ânsia física por alguém do sexo oposto. No entanto, a simples experiência sexual que se desenvolve sem Eros não pode ser encarada como algo "impuro". Lewis nos diz que "se todos os que se deitarem juntos sem estar no estado de Eros fossem abomináveis, nós todos viemos de uma linhagem espúria. As épocas e lugares em que o casamento depende de Eros são uma minoria. A maior parte de nossos ancestrais se casaram cedo com parceiros escolhidos por seus pais por razões que nada tinham a ver com Eros. Prestavam-se ao ato sem qualquer outro estímulo além do simples desejo 'animal'". Eros pode se desenvolver a partir do desejo sexual.

E continua Lewis com maestria: "Porém, no geral, o que acontece primeiro é simplesmente uma deliciosa preocupação com o ser amado - uma preocupação geral, inespecífica, com a mulher no total. O homem nestas condições na verdade não tem tempo para pensar em sexo, pois está muito ocupado pensando numa pessoa. O fato de ela ser uma mulher é muito menos importante do que ser ela mesma. Ele está cheio de desejo, embora este não tenha uma tonalidade sexual. Se lhe perguntasse o que quer, sua resposta sincera geralmente seria: “Continuar pensando nela”. É o amor contemplativo". Eros é àquele estado que chamamos de “estar amando”.

O desejo sexual, sem Eros, deseja a coisa em si; Eros deseja o ser amado [....]

Eros faz com que o homem não deseje uma simples mulher, mas uma mulher especial. De algum modo misterioso, mas indiscutível, o amante deseja a amada, ela mesma, e não o prazer que lhe pode proporcionar.

Sem Eros, o desejo sexual, como qualquer outro desejo, é um fato sobre nós mesmos. Dentro de Eros ele é um fato a respeito do ser amado [....] Eis a razão pela qual Eros, embora seja o rei dos prazeres, sempre, em seu auge, tem a atitude de considerar o prazer como um subproduto.

Mas para aqueles que acham que Eros é um pouco sem graça para as aventuras do prazer sexual, está enganado. Eros não é frio quanto à sexualidade. Existe em Eros, um prazer carnal saudável e tão sublime que o simples desejo sexual, frente a ele, torna-se ínfimo. Os antigos gregos chamavam esse sub-elemento de Vênus.

A sexualidade pode operar sem Eros ou como parte de Eros, isto é, com Vênus. E isso é um tanto formidável, porque se Eros é um sentimento elevado que tem a amada como uma jóia preciosa e frágil que merece todo cuidado, que torna tudo tão solene e melancólico, Vênus, fundido em Eros, é um sentimento um tanto animal e quase cômico.

Vênus é escarnecedor e maldoso; brinca com os comportamentos mais íntimos. Muitas vezes zomba com os amantes. Quando temos a situação perfeita para sua realização, Vênus nos troça e foge. Isso vem sob efeito de indisposição, ou de outras coisas mais que acabam por afastar o ato. De outra forma, quando a situação parece impossível, nos diz Lewis, "e nem mesmo olhares podem ser trocados - em trens, lojas e festas intermináveis - ela [Vênus] os assalta com toda a sua força. Uma hora mais tarde, quando o tempo e o lugar são propícios, ela se retira misteriosamente; talvez de um só deles. Que perturbação isso deve causar - quantos ressentimentos, suspeitas, vaidades feridas e toda a conversa corrente sobre as 'frustrações' - naqueles que a deificaram! Mas os amantes sensatos riem. Tudo faz parte do jogo; um jogo de luta-livre, e as escapadas, quedas e colisões de cabeça devem ser tratadas como uma brincadeira".

Vênus, de certa forma, faz o homem unir sentimentos extremos, isto é, o amor sublime e o desejo animal. Daí a possibilidade de haver brincadeiras ásperas e até "selvagens" entre verdadeiros amantes possuídos de Eros.

Eros é formidável, é pleno em se tratando de amor entre amantes. Por um lado, nos faz preferir ser infelizes com o ente amado a ser felizes em quaisquer outros termos, ser miserável com ela do que feliz sem ela. Por outro lado, Eros é combustível que acende um fogo abrasador pela amada, um impetuoso desejo de possuí-la. É ao mesmo tempo brisa suave e brasa candente, carinhos ternos e desejos ardentes.

sábado, 7 de março de 2009

Perdão ou Desculpa?

Perdão e Desculpa são duas palavras tão banais no uso, que nem desconfiamos da diferença entre elas. Em um certo sentido, Perdão e Desculpa são palavras quase opostas. O Perdão nos diz "ok, você fez isso, mas eu aceito seu pedido de perdão; não jogarei isso na sua cara e seremos do mesmo jeito que éramos antes". Já a Desculpa, fala "eu percebo que você não podia evitar, sei que realmente você não queria fazer isso; você não é culpado". Assim, um ato falho sem culpa precisa de desculpa, e não de perdão. Da mesma forma, boas desculpas não precisam de perdão - já que o perdão exige culpa - e se você quer ser perdoado, não há desculpas para o que fez - pois pedir perdão é assumir a culpa.
Porém, isso não invalida a possibilidade de haver os dois ao mesmo tempo. O problema está em pedirmos desculpas para aquilo que exige perdão.

Uma parte dessa idéa, se não me engano, veio-me de C. S. Lewis.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Amar é sempre certo


Apesar de todas as decepções que um amor possa nos trazer, é preferível um coração de carne a um coração de "pedra", mesmo estando a carne vulnerável a sangrar. Acredito que o conselho de Agostinho de que "não permita que sua felicidade dependa de algo que você possa perder" é suplantado pelo de C. S. Lewis, quando diz "preferiria perdê-la, a jamais tê-la visto".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Por que Lewis e Chesterton?

Porque foram os dois escritores modernos que mais se destacaram no duelo contra as incongruências da modernidade e contra as modernas filosofias que, até hoje, querem suplantar o bom-senso.

Não as perseguiram com espadas, mas com suas penas, que brandiam como uma arma. E nessa extraordinária questão, desvelaram energia de real eloquência, de lógica e de vívido entusiasmo, concentrando-se sobre enganos difundidos e dissolvendo, com deslumbrante lucidez, aparentes contradições.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Ofensa

Aprendi com Lewis que de 100 vezes que nos sentimos ofendidos por alguém, 99 das vezes o ofensor não tinha a intenção de ofender, ou sua ofensa não foi planejada para ser tão grande quanto a encaramos. Isso pode ser verificado quando somos nós o ofensor. Quando realmente queremos ferir alguém, não é raro que a pessoa nem se dê conta da nossa ofensa, mas em muitos casos em que não tínhamos a intenção de ofender, descobrimos que a pessoa ficou bastante ofendida.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Os perigos da amizade

C. S.Lewis

No momento em que duas pessoas se tornam amigas, elas de uma certa forma se isolam das demais. [....] A comunidade pode até repeli-las e suspeitar delas. Os líderes no geral fazem isso. Os diretores de escolas, os administradores de comunidades religiosas, os capitães de navios, podem sentir-se preocupados quando surgem amizades fortes entre pequenos grupos de seus agregados.

[....] O conceito que valoriza a coletividade acima do indivíduo necessariamente também desacredita a Amizade; ela é uma relação entre homens em seu mais alto nível de individualidade. Isola os homens do “conjunto” como a própria solidão poderia fazê-lo; e mais perigosamente ainda, pois os isola em grupos de dois ou três [....] Dizer, “Estes são meus amigos” é o mesmo que dizer, “Estes não são”.

Todo nome que dão a um círculo de amizade é quase sempre depreciativo. Na melhor das hipóteses chamam-no de “grupo”, “roda”, “gang” [....] Os que só conhecem pessoalmente a Afeição, o Companheirismo e Eros consideram os Amigos como “pedantes convencidos que se julgam bons demais para nós”. Esta é naturalmente a voz da inveja, mas ela sempre faz a acusação mais verdadeira...

[....] Sozinho, entre companheiros que não me compreendem, eu mantenho certos padrões e pontos de vista timidamente, um tanto envergonhado por admiti-los e um tanto duvidoso de que possam ser certos. Mas basta estar de volta aos meus Amigos e em meia hora, ou mesmo dez minutos, esses mesmos padrões e conceitos se tornam de novo indiscutíveis. A opinião desse pequeno circulo, enquanto estou nele, supera a de mil outras pessoas: à medida que a amizade se robustece, me sentirei assim, mesmo quando meus amigos estão distantes, pois todos queremos ser julgados por nossos iguais, por aqueles que são “segundo o nosso coração”.

Apenas estes conhecem na verdade nossos pensamentos e só eles julgam segundo padrões que reconhecemos. É deles o louvor que cobiçamos e a censura que tememos.

[....] É fácil ver, portanto, por que as autoridades não vêem com bons olhos a Amizade. Cada amizade verdadeira é uma espécie de secessão, e mesmo rebelião. Pode ser uma rebelião de pensadores sinceros contra erros aceitos ou de maníacos contra o bom senso aceito; de verdadeiros artistas contra a arte popular inferior, ou de charlatões contra o gosto civilizado; de homens bons contra a maldade social ou de homens maus contra a bondade. Qualquer que seja ela, não irá agradar os que estão Em Cima.

Os homens que possuem amigos fiéis são menos fáceis de manejar ou “alcançar”; mais difíceis de corrigir por parte das boas autoridades e de corromper por parte das más. Assim sendo, se nossos senhores [....] de maneira sutil [....] vierem a ter êxito em produzir um mundo em que todos são Companheiros e ninguém é Amigo, terão removido alguns perigos, e terão também tirado de nós aquilo que é quase nossa mais forte proteção contra a servidão absoluta.

Os perigos porém são perfeitamente reais. A Amizade (como os antigos descobriram) pode ser uma escola de virtude; mas também (como não perceberam) uma escola de vício. Ela é ambivalente. Torna melhores os homens bons e piores os maus.

Fica evidente que o elemento de divisão, de indiferença ou surdez (pelo menos em alguns assuntos) às vozes do mundo exterior, é comum a todas as amizades, sejam elas boas, más, ou simplesmente inócuas. Mesmo que a base comum da amizade não seja nada mais momentoso do que colecionar selos, o círculo correta e inevitavelmente ignora a opinião de milhões que a consideram como uma ocupação tola, e dos milhares que são apenas diletantes [....] Da mesma forma que sei que eu seria um intruso num círculo de golfistas, matemáticos ou motoristas, reivindico o mesmo direito de considerá-los intrusos no meu.

As pessoas que aborrecem umas às outras devem encontrar-se poucas vezes, as que interessam uma à outra, muitas vezes. O perigo está em que esta indiferença ou surdez à opinião externa, embora justificada e necessária, pode levar a uma indiferença ou surdez totais [....] A surdez parcial, nobre e necessária, encoraja a surdez total que é arrogante e desumana [....] A surdez parcial e justificável é baseada em certo tipo de superioridade - mesmo que se tratasse de um conhecimento superior a respeito de selos. O senso de superioridade vai então ligar-se à surdez total. O grupo irá desdenhar e ignorar os que se acham fora dele; tornando-se, com efeito, algo muito semelhante a uma classe. Um círculo social é uma aristocracia autonomeada.

[....] Numa boa Amizade cada membro se sente humilde em relação aos demais. Vê que eles são esplêndidos e se julga com sorte por estar entre os mesmos [....] Mas, infelizmente, esses eles, de um outro ponto de vista, são também nós. Assim, a transição da humildade individual para o orgulho corporativo é muito fácil [....] Já vimos isto sendo feito pelos “ veteranos” na escola falando na presença de um aluno novo, ou dois “permanentes” no Exército diante de um “temporário ”; tais pessoas se expressam com grande intimidade a fim de serem ouvidas. Todos os que não fazem parte do círculo precisam saber que não estão nele. A Amizade pode em análise final não ter base alguma, exceto o fato de ser exclusivista. Ao falar a um Estranho, cada membro tem prazer em mencionar os outros pelo primeiro nome ou por um apelido; não apesar de que, mas porque, o Estranho não saberá a quem se refere.

[....] Podemos detectar assim o orgulho da Amizade em muitos círculos de amigos. Seria precipitado supor que o nosso possa estar livre desse perigo, pois, como é natural, exatamente nele é que seríamos mais lentos em reconhecer essa falha.

A amizade é até mesmo angelical, mas o homem precisa ser triplamente protegido pela humildade se quiser comer o pão dos anjos sem risco.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Todos os caminhos levam a Deus?



Não fazemos parte de um mundo onde todos os caminhos são raios de um mesmo círculo e onde todos eles, se percorridos em um tempo suficiente, se vão aproximando até que se encontrem no centro; ao contrário, vivemos num mundo em que toda estrada, depois de alguns quilômetros, divide-se em duas, e cada uma dessas em mais duas, e a cada bifurcação você é obrigado a tomar uma decisão.
C. S. Lewis

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Afeição


O cão late para os estranhos que nunca lhe fizeram qualquer mal e sacode a cauda para os velhos conhecidos embora jamais lhe tenham feito qualquer bem. A criança pode amar um velho jardineiro carrancudo que quase não nota sua presença e guardar distância do visitante que faz tudo para atraí-la.
[....]
A afeição pode amar os que não possuem atrativos.
[....]
A Afeição possui seus próprios critérios. Seus objetos precisam ser familiares.
[....]
A glória especial da Afeição é que ela pode unir aqueles que mais enfaticamente, e até de maneira cômica, não o foram [....] Ela pode existir entre um jovem universitário e uma velha enfermeira, embora suas mentes habitem mundos diversos. Ele ignora até mesmo a barreira das espécies. Nós a vemos não só entre cão e homem, mas também, surpreendentemente, entre cão e gato [....] É o mais humilde e mais largamente difundido de todos os amores, o amor em que nossa experiência mais se aproxima daquela dos animais.

Lewis

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Eros



Dou naturalmente o nome de Eros àquele estado que chamamos de “estar amando”.
[....]
Quando Eros está em nós essa é uma de suas marcas: preferimos ser infelizes com o ente amado a ser felizes em quaisquer outros termos.
[....]
Eros jamais hesita em dizer: “Antes isto do que a separação. Melhor ser miserável com ela do que feliz sem ela. Deixe que nossos corações se partam, desde que se partam juntos”.
C.S. Lewis

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A linguagem poética

Esse é um dos poderes mais notáveis da linguagem poética: comunicar-nos a qualidade de experiências que não tivemos e que talvez jamais tenhamos; utilizar fatores que envolvem nossa experiência de modo que se tornem indicadores de algo externo a ela...

C.S. Lewis