“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sempre duelando


Chesterton: "Bernard, quem o vir pensará que estamos passando fome na Inglaterra".

Bernard Shaw: "Gilbert, quem o vir pensará que és a causa dessa fome".



(Foto: Shaw à esquerda e Chesterton à direita. No meio, Hilare Belloc.)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Tempero da vida e outros ensaios


Para a imensa satisfação de muitos, mais um livro de Chesterton nos chega em língua portuguesa: O Tempero da vida e outros ensaios.

"O obra reúne os pensamentos do criador do Padre Brown sobre o avanço da mentalidade burguesa e tecnológica entre as duas guerras, artigos sobre humor, sobre a literatura sentimental e sobre a composição de histórias de detetive, além de textos sobre as obras de Shakespeare, Esopo, Hans Christian Andersen, Lewis Carroll, Charles Dickens e Charlotte Brontë. Em todos eles, um senso de humor perpassa as reflexões sobre arte, filosofia e religião".

Trecho: "Se é para se condenar a literatura sentimental, definitivamente não o deverá ser porque é sentimental, e sim porque não é literatura. O drama ou a epopeia podem ser consideradas a vida ativa da literatura; o soneto ou a ode, a vida contemplativa. O ensaio é a brincadeira. O ócio é um alimento, como o sono; a liberdade é um alimento, como o sono. O humor corresponde à virtude humana da humildade e é apenas mais divino porque tem, por um instante, uma percepção maior dos mistérios".

Comprem!

Livraria Cultura

Livraria Saraiva

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O inventor

Gustavo Corção

Convém, antes de prosseguir, esclarecer a distinção entre o inventor e o descobridor.

O inventor pertence ao campo do fazer e define-se pelo ato de imprimir uma forma nova à matéria já conhecida; o descobridor pertence ao campo do conhecer e consiste em descobrir e formular novas propriedades e relações já existentes no objeto, mas escondidos à inteligência. A emissão eletrônica constituiu uma descoberta; a válvula eletrônica, foi uma invenção. As leis do pêndulo — esse antiqüíssimo objeto — foram descobertas; o relógio baseado no isocronismo pendular foi inventado.

O técnico distingue-se do cientista por ser um indivíduo em que o fazer prevalece sobre o conhecer...

O técnico, como seu irmão o poeta, é mais inovador do que o cientista e o descobridor. Quem descobre um satélite de Júpiter ou uma nova propriedade do oxigênio está apenas pronunciando pela primeira vez, com verbo humano, o que já estava escondido no céu ou na terra; quem faz um saca-rolhas ou um poema, está fazendo um objeto que antes dele não existia.

O homem de imaginação inventiva é o explorador dos possíveis.

Assim, tateando as essências, conduzindo-as e sentindo-lhes as resistências, vai o inventor experimentando aproximações até que descubra, num desses choques, uma fecundação. Aí se imobiliza, crispado, atento, como um felino e demora-se o quanto pode no deslumbramento da presa apetecida. Nesse momento acode-lhe ao espírito uma impressão extremamente ingênua: ele vê o objeto, numa antecipação, como se já estivesse pronto. Não no detalhe, problema por problema, mas inteiro embora indeciso como desenho de criança. Ele vê a forma da coisa que pela primeira vez na história do mundo se desenha em sua inteligência, oscilante, líquida, como se estivesse surgindo no fundo de um lago.

Desse momento em diante, já com o sabor das primícias, ele volta atrás, aos detalhes, aos problemas, tendo porém o passo mais firme porque já viu pronto, num sonho, o objeto de seus sonhos. Se foi uma miragem apenas ele irá tragicamente até as últimas conseqüências porque entre essa miragem e o universo inteiro, com suas pedras, árvores e metais, ele crê e prefere a miragem. Vestirá suas asas de lona e se esborrachará diante dos parisienses atônitos porque num certo minuto se viu voando em imaginação, tão vivo e leve como se fosse um albatroz.

O inventor técnico precisa de um ambiente rico de poesia, de filosofia, de formas diversas, onde enriqueça sua capacidade psicológica de explorar analogias. Em outras palavras: numa sociedade tecnicalizada a técnica ficaria rapidamente estacionária, e logo depois regrediria. Há um mistério de vida vivida, em casa, nos jardins, nos teatros, em cada parafuso do Radar e em cada peça de um abridor de latas.

Há pessoas que falando em vacas, só tem presentes e prontas para entrar em jogo na mente, as idéias correlatas mais próximas: leite, manteiga, problemas de pecuária ou de dieta. Outras, porém, dispõem de milhares de coisas que viu, que ouviu, em que pensou, tudo pronto para cruzar rapidamente o céu do pensamento, produzindo na passagem colisões, explosões, cintilações de onde saem outros com órbitas. Prontamente soltará dentro do círculo luminoso a lembrança do deus Osíris, o Egito inteiro, um quadro e pedaços de um discurso demagogo ouvido na véspera.

Examine o leitor, detidamente, o seu receptor de rádio e admire a confluência de coisas que ele representa. A caixa veio da floresta; o ferro e o alumínio, o vidro e o cobre, das quatro partes do mundo; a resina, as fibras, a borracha, que tinham seu emprego em milhares de outros objetos, encontram-se finalmente dentro do receptor; a cera das abelhas que Virgílio cantou, e que há séculos e séculos ilumina os altares, serve agora para revestir as bobinas.

O inventor, como o poeta, é o homem que procura o novo na colisão das coisas distantes.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A "emancipação"

Chesterton

Não nego que as mulheres foram ofendidas ou mesmo torturadas [no passado, quando cuidavam exclusivamente do lar e da família]; mas duvido que elas tenham sido tão torturadas quanto o são agora pela moderna tentativa absurda de fazê-las ao mesmo tempo rainhas do lar e funcionárias competitivas.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O grande artista


Chesterton

Um homem não pode ser sábio o suficiente para ser um grande artista, sem ser sábio o suficiente para querer ser um grande filósofo. Um homem não pode ter a energia necessária para produzir boa arte, sem ter a energia necessária para ultrapassar isso. O pequeno artista se contenta com a arte, o grande artista não se contenta com nada a não ser tudo.

domingo, 27 de junho de 2010

O ego mental

Dostoievski

O homem é a tal ponto afeiçoado ao seu sistema e à dedução abstrata que está pronto a deturpar intencionalmente a verdade, a descrer de seus olhos e seus ouvidos apenas para justificar a sua lógica.

Voltando-se para o futuro



Chesterton

A mente moderna é voltada para o futuro por uma certa sensação de cansaço, não sem uma mistura de terror, com a qual contempla o passado... E o estímulo que a impulsiona tão avidamente, não é o amor pelo futuro. Pelo contrário, é o medo do passado. Medo não somente dos males do passado, mas também das virtudes do passado. A mente moderna não agüenta as insuportáveis virtudes da humanidade. No passado, houve tanta fé ardente que não podemos suportar, tantos heróis vigorosos que não podemos imitar, tantos grandes esforços, obras monumentais ou glórias militares que ao mesmo tempo nos parece sublimes e patéticas. O futuro é nosso refúgio diante da feroz competência dos nossos antepassados.

... Os homens inventam novos ideais porque não se atrevem com os antigos ideiais. Olham para frente com entusiasmo, porque têm medo de olhar para trás...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Lançamento: Como Ler um Livro

A editora É Realizações lançará neste dia 25 de junho a grande obra Como Ler um Livro, de Mortimer Adler e Charles Van Doren, da qual eu me gabava de ter dois exemplares, um de 1974 (com o título de "A Arte de Ler") e outro de uma pequena tiragem em 2000. (Parece-me que há uma conspiração para derrubar minha coleção de livros raros.)

Há algum tempo fiz uma crítica a respeito desta obra e do autor, podem ler aqui.

Clique na imagem abaixo e depois aumente com outro clique com a lupa.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Lançamento: O Homem Eterno


A editora Mundo Cristão lançou neste mês de junho uma das grande obras de Chesterton chamada "O Homem Eterno", da qual eu me gabava de ter três exemplares da única (até então) e raríssima edição em português de 1934.

O livro é um esboço da história da humanidade contada de uma forma fascinante, com o bom-senso incomparável de Chesterton. Toda a história ali apresentada ronda sobre dois pontos, como ele mesmo diz no prefácio: a criatura chamada homem e o homem chamado Cristo.

Chesterton trata com elegância, bom-humor e esmagadora sensatez assuntos que vão desde o homem das carvernas até os tempos modernos. Nesta obra, você encontrará capítulos sobre mitologia, teoria da evolução, ciência, fé, religiões, etc., sempre num desenvolvimento que é como o desenrolar dos tempos.

Como dizia C. S. Lewis, elencando suas leituras, Chesterton "... era mais sensato que todos os outros modernos juntos...". Foi o que eu também pude comprovar ao conhecer as obras deste grande escritor. Há quem diga, como eu, que "O Homem Eterno" é sua obra-prima. É leitura obrigatória para todos!

Pra quem não conhece o autor, leiam aqui!


Um fato que me surpreendeu foi a criatividade da capa desta edição. Notem os dois ós formando o símbolo do infinito. Fantástico!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Fanatismo moderno

Chesterton

Vejo com certa diversão, tanto na literatura Americana, quanto na Inglesa, o surgimento de um novo tipo de fanatismo. Este, não consiste em um homem estar convencido de que está certo; isso não é fanatismo, senão sanidade. O fanatismo consiste em um homem convencer-se de que outro deve estar errado em tudo, pelo fato de estar errado em alguma coisa; que ele está errado até em dizer que pensa com sinceridade que está certo.

Ver também: Fanatismo