“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

quinta-feira, 29 de março de 2012

Suportar e sorrir

Chesterton - Ortodoxia 

[Gostaria de enfatizar] “as seguintes proposições: primeiro, que algum tipo de fé é necessário em nossa vida até mesmo para melhorá-la; segundo, que algum tipo de insatisfação com as coisas é necessária até mesmo para sentir-se satisfeito; terceiro, que para se ter esse contentamento e descontentamento, ambos necessários, não basta ter o equilíbrio óbvio do estóico. Pois a mera resignação não tem a gigantesca leveza do prazer, nem a orgulhosa intolerância da dor. Há uma objeção vital ao conselho de simplesmente sorrir e suportar. A objeção é que se você simplesmente suportar, você não sorri”.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sobre os críticos da Idade Média

Chesterton - Chaucer versus Steverson

“O crítico que condena nossos infelizes pais fala, ao mesmo tempo, sobre luta e escravidão; geralmente expande esta crítica a uma visão de guerra universal; insiste que aqueles homens sangravam por estéreis votos de superstição e lutavam uns com os outros por fantásticas questões de etiqueta; zomba de seus esportes por terem sido rudes e perigosos, e de sua religião, por ter sido militante e repleta de mártires; reclama igualmente da frívola mortalidade das competições e da fanática mortalidade das cruzadas; e então ele resume tudo, num movimento de sublime consistência, dizendo que aqueles homens eram fracos e que temiam a morte”. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Revolucionário Moderno


Chesterton, Ortodoxia.

O liberalismo degradou-se em liberalidade. Os homens tentaram transformar o verbo "revolucionar" de transitivo em intransitivo. Os jacobinos não apenas sabiam dizer contra que sistema se rebelariam, mas também (o que é mais importante) contra que sistema NÃO se rebelariam, o sistema em que confiariam.

Mas o novo rebelde é um cético, e não confia inteiramente em nada. Não tem nenhuma lealdade; portanto, ele nunca poderá ser de verdade um revolucionário. E o fato de que ele duvida de tudo realmente o atrapalha quando quer fazer alguma denúncia. Pois toda denúncia implica alguma espécie de doutrina moral; e o revolucionário moderno duvida não apenas da instituição que denuncia, mas também da doutrina pela qual faz a denúncia. Assim, ele escreve um livro queixando-se de que a opressão imperialista insulta a pureza das mulheres; e depois escreve outro (sobre o problema do sexo) no qual ele mesmo a insulta. Ele amaldiçoa o sultão pela perda da virgindade de garotas cristãs; e depois amaldiçoa a sra. Grundy pela preservação dela. Como político, ele grita que toda guerra é um desperdício de vida, e depois, como filósofo, grita que toda vida é um desperdício de tempo.

Um pessimista nisso denunciará um político por matar um camponês; e depois, pelos mais elevados princípios filosóficos, provará que o camponês deveria ter-se suicidado. Alguém denuncia o casamento como uma mentira; e depois denuncia os libertinos aristocráticos por tratarem essa mesma instituição como uma mentira. Alguém chama a bandeira de bugiganga; e depois acusa os opressores da Polônia ou da Irlanda de terem suprimido aquela bugiganga. O adepto dessa escola primeiro participa de uma reunião política, na qual se queixa de que os selvagens são tratados como se fossem animais; depois apanha o chapéu e o guarda-chuva e vai para uma reunião científica, na qual prova que eles são praticamente animais.

Em resumo, o revolucionário moderno, sendo um cético sem limites, está sempre ocupado em minar suas próprias minas. No seu livro sobre política ele ataca os homens por espezinharem a moralidade; no seu livro sobre ética ele ataca a moralidade por espezinhar os homens. Portanto, o homem moderno em estado de revolta tornou-se praticamente inútil para qualquer propósito da revolta. Rebelando-se contra tudo, ele perdeu o direito de rebelar-se contra qualquer coisa específica.

domingo, 9 de outubro de 2011

Bem-vindo à corporação.

Chesterton
O Homem que foi quinta-feira

- É o novo recruta? - perguntou o chefe invisível que parecia estar a par de tudo. - Está bem. Está admitido.

Syme, assombrado, trêmulo, procurou timidamente lutar contra esta sentença irrevogável.

- Mas eu, na verdade, não tenho experiência...

- Ninguém tem experiência alguma da batalha do Armagedom - disse o outro.

- Também não sei se sou capaz...

- Mas você quer e isso basta - retrucou o desconhecido.

- Mas, a verdade - ponderou Syme -, é que não sei de nenhum ofício em que a simples boa vontade seja prova de aptidão.

- Eu sei - disse o outro. - O dos mártires. Eu estou condenado à morte. Passe bem.

Foi assim que ao reaparecer com sua deplorável cartola preta e seu anárquico e deplorável casaco na claridade carmesim do crepúsculo, Gabriel Syme vinha sido feito membro da nova corporação de detetives, fundada para dar combate à grande conspiração.

Ver também "Os policiais filósofos".

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A educação e a sensibilidade

C. S. Lewis
A Abolição do Homem

[Alguns] professores vêem o mundo ao redor dominado pela propaganda emotiva – aprenderam com a tradição que a juventude é sentimental – e concluem que a melhor coisa a fazer é fortalecer a mente dos jovens contra a emotividade. A minha própria experiência como professor me ensina justamente o contrário. Pois, para cada aluno que precisa ser resguardado de um leve excesso de sensibilidade, existem três que precisam ser despertados do sono da fria vulgaridade. O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos. Ao sufocar a sensibilidade dos nossos alunos, apenas conseguiremos transformá-los em presas mais fáceis para o ataque do propagandista. Pois a natureza agredida há de se vingar, e um coração duro não é uma proteção infalível contra um miolo mole.

domingo, 18 de setembro de 2011

Chesterton vs Nietzsche

No blog do Professor Angueth, um leitor sugeriu que ele confrontasse as ideias de Chesterton e Nietzsche, como se fora um debate. O Professor prontamente acolheu a sugestão e postou em seu blog alguns trechos em que Chesterton combateu as ideias de Nietzsche.

Achei a ideia muito interessante e decidi contribuir. Como o Professor fez um apanhado, principalmente do livro "Hereges", decidi postar mais algumas palavras de Chesterton combatendo as ideias nietzscheanas.

Como disse o Professor Angueth, "Nietzsche morreu em 1900 e Chesterton começou a escrever profissionalmente um pouco depois disso. Assim, ele não poderia ter debatido diretamente com o filósofo alemão. Contudo, ele percebeu bem a natureza maligna de sua filosofia e a debateu com todos os seus defensores, principalmente Shaw e Wells, mas não só". Abaixo segue mais um pouco do que seria esse debate, tomando trechos do livro Ortodoxia:

"Nietzsche começou essa idéia absurda de que os homens buscaram como bem o que agora chamamos de mal. Se fosse assim, não poderíamos falar em ir além ou até mesmo em ficar aquém do bem e do mal. Como você pode ultrapassar o Silva se você estiver caminhando na direção contrária? Você não pode discutir se um povo obteve mais êxito em sentir-se infeliz do que outro em sentir-se feliz. Seria como discutir se Milton era mais puritano do que um porco é gordo".

"O ponto supremo não é saber por que alguém busca determinada coisa, mas o fato de buscá-la. Não disponho aqui de espaço para traçar ou explicar essa filosofia da Vontade. Surgiu, suponho, por intermédio de Nietzsche, que pregou algo chamado de egoísmo. Isso, de fato, era bastante simplório; pois Nietzsche negava o egoísmo pregando-o. Pregar alguma coisa é entregá-la. Primeiro, o egoísta chama a vida de guerra sem compaixão, depois despende o máximo esforço possível para treinar seus inimigos na guerra. Pregar o egoísmo é praticar o altruísmo. Mas como quer que tenha começado, a visão é bastante comum na literatura atual".

"Nietzsche tinha algum talento natural para o sarcasmo: ele sabia escarnecer, embora não soubesse rir; mas há sempre algo incorpóreo e sem peso na sua sátira, simplesmente porque ela não tem nenhum peso de moralidade comum em que se apoiar. O próprio Nietzsche é mais absurdo que qualquer coisa por ele denunciada. Mas, de fato, ele se sustenta muito bem como exemplo típico de todo esse fracasso da violência abstrata. O amolecimento do cérebro que no fim o atingiu não foi um acidente físico. Se Nietzsche não houvesse acabado na imbecilidade, o nietzscheanismo o teria feito. Pensar no isolamento e com orgulho acaba na idiotice. Todos os homens que não passam por um amolecimento do coração devem no mínimo passar pelo amolecimento do cérebro".

"Essa, incidentalmente, é toda a fraqueza de Nietzsche, que alguns estão representando como pensador ousado e forte. Ninguém negará que ele foi um pensador poético e sugestivo; mas foi exatamente o oposto de forte. Não foi de modo algum ousado. Ele nunca colocou suas idéias diante de si com palavras simples e abstratas, como fizeram os vigorosos e destemidos pensadores Aristóteles e Calvino e até mesmo Karl Marx. Nietzsche sempre se evadia de uma questão usando uma metáfora física, como um jovial poeta menor. Ele dizia "além do bem e do mal" porque não tinha a coragem de dizer "melhor que o bem e o mal", ou "pior que o bem e o mal". Se ele houvesse enfrentado o pensamento sem metáforas, teria visto que se tratava de um disparate. Assim, quando ele descreve o seu herói, não ousa dizer "o homem mais puro", ou "o homem mais feliz", ou "o homem mais triste"; pois todas essas expressões são idéias, e as idéias são alarmantes. Ele diz "o homem superior" ou "o super-homem", uma metáfora física, baseada em acrobatas ou alpinistas. Nietzsche é realmente um pensador muito tímido. Realmente não tem a mínima idéia do tipo de homem que ele quer que a evolução produza".


Trarei um pouco mais desse debate retirando trechos de outros livros ainda não traduzido para o português.

Abraços.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O melhor de todos os mundos impossíveis

G. K. Chesterton
The G.K. Chesterton calendar (Cecil Palmer)


Este mundo não deve ser justificado como ele é justificado pelos otimista mecânicos; não deve ser justificado como o melhor de todos os mundos possíveis. Seu mérito não é que ele seja ordenado e explicável; seu mérito é que ele é selvagem e totalmente inexplicável. Seu mérito é precisamente que nenhum de nós poderia ter concebido tal coisa, que nós teríamos rejeitado essa ideia descabida como milagrosa e irracional. Este mundo é o melhor de todos os mundos impossíveis.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Meu lar, meu castelo

Há quase dois anos, postei uma interessante citação de William Pitt, onde enaltecia o valor de nosso lar, dizia ele:

"O lar de um homem é o seu castelo. O homem mais pobre desafia, em sua casa, todas as forças da coroa. A sua cabana pode ser muito frágil, o teto pode tremer, o vento pode soprar entre as portas mal ajustadas, a trombeta pode penetrar, mas o Rei da Inglaterra não pode nela entrar".

Para a minha surpresa, achei um comentário de Chesterton sobre essa citação, que a complementa de forma extraordinária. Comenta Chesterton:

"O homem que disse que a casa de um Inglês é o seu castelo disse muito mais do que ele pensou. O Inglês pensa na sua casa como algo fortificado, e provisionado, e as grandes ameças que vêm sobre ele é o cerne de sua origem romântica. Neste sentido, ele seria mais forte nas noites de inverno mais selvagens, quando o portão trancado e a ponte elevadiça levantada obstrui não somente os de fora, mas também os dentro. A casa do Inglês é quase sagrada, não meramente quando o Rei não pode entrar, mas também quando o Inglês não pode dela sair".

Mera espiritualidade

G. K. Chesterton
The G.K. Chesterton calendar (Cecil Palmer)


Quando a evolução científica foi anunciada, alguns temiam que ela iria incentivar a mera animalidade. Mas ela fez pior: incentivou a mera espiritualidade. Ela ensinou aos homens a pensar que, enquanto eles estavam evoluindo do macaco estavam indo para anjos. Mas você pode evoluir do macaco indo a demônio.

sábado, 20 de agosto de 2011

Fé e Razão

Chesterton

Quando um crítico diz, por exemplo, que a fé manteve o mundo em trevas até que a dúvida levou ao esclarecimento, é ele próprio que fala coisas pela fé; coisas de que ele nunca foi suficientemente esclarecido para poder duvidar. Essa simplificação extremamente rude da história humana é que tem sido ensinada. Eu não o culpo por isso. Apenas quero observar que ele é um exemplo inconsciente das próprias coisas que insulta.

Illustrated London News 13/02/1926