“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Anarquia

Chesterton

O anarquismo nos estimula a ser artistas criativos arro­jados e a não dar atenção alguma a leis e limites. Mas é impossível ser artista e não dar atenção a leis e limites. A arte é limitação; a essência de todos os quadros é a moldu­ra. Se você desenha uma girafa, deve desenhá-la de pesco­ço comprido. Se, dentro do seu método criativo arrojado, você se julgar livre para desenhar uma girafa de pescoço curto, de fato descobrirá que não está livre para desenhar uma girafa. No momento em que se entra no mundo dos fatos, entra-se no mundo dos limites. Pode-se libertar as coisas de leis externas ou acidentais, mas não das leis da sua própria natureza. Você pode, se quiser, libertar um ti­gre da jaula; mas não pode libertá-lo de suas listras. Não liberte o camelo do fardo de sua corcova: você o estaria libertando de ser um camelo. Não saia por aí feito um de­magogo, estimulando triângulos a libertar-se da prisão de seus três lados. Se um triângulo se libertar de seus três la­dos, sua vida chega a um desfecho lamentável.

A anarquia completa não apenas impos­sibilitaria a existência de qualquer disciplina ou fidelidade; também impossibilitaria qualquer divertimento.
Para dar um exemplo óbvio, não valeria a pena apostar se a aposta não criasse obrigações. A dissolução de todos os contratos não só destruiria a moralidade, mas também acabaria com as apostas. Ora, apostas e jogos dessa natu­reza são apenas formas atrofiadas e distorcidas do instinto original do homem por aventura e romance [....] E perigos, recompensas, puni­ções e realizações de uma aventura precisam ser reais, caso contrário a aventura é apenas um pesadelo incerto e cruel.

Se eu aposto, devo ser obrigado a pagar, ou então não existe poesia na aposta. Se eu desafio, devo ser obrigado a lutar, ou não haveria poesia no desafio. Se eu prometo fi­delidade, devo ser amaldiçoado quando sou infiel, caso contrário não há graça na promessa. Não se poderia criar nem um conto de fadas a partir das experiências de um homem que, quando fosse engolido por uma baleia, pu­desse ir parar no alto da Torre Eiffel, ou quando fosse transformado num sapo, pudesse comportar-se como um flamingo.

Até mesmo para os propósitos do romance mais maluco os resultados precisam ser reais; os resultados precisam ser irrevogáveis. O casamento cristão é o grande exemplo de um resultado real e irrevogável; e é por isso que ele é o prin­cipal assunto e centro de todos os textos românticos. E este é o meu último exemplo das coisas que eu exigiria, e exigiria de modo imperativo, de qualquer paraíso social; eu exigi­ria ser obrigado a cumprir o meu contrato, a levar a sério os meus juramentos e compromissos...

4 comentários:

Elis disse...

Finalmente... rsrsrs. E não esquece a minha sugestão, hein!?
Bjo!

Nina disse...

belo texto

Rubia Serafim disse...

E um viva para a liberdade plena!

Agnon Fabiano disse...

Paradoxalmente, até mesmo a fruição da liberdade requer disciplina. Somos livres porque respeitamos certos preceitos.
Sim, viva a liberdade plena!