terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Mortimer Adler e "A arte de ler"


Andei revirando minhas estantes em busca de um livro de George Orwell e acabo dando de frente com "A arte de ler" de Mortimer Adler, livro raríssimo, com edição datada de 1974. Depois disso, sumiu da pauta das editoras, até que a Francisco Alves imprimiu pouquíssimas unidades em 2000, com o nome "Como ler um livro", cuja sorte permitiu-me também adquirir por um bom preço.

Abri, dei uma olhada nas minhas anotações marginais, folheei, li algumas marcações e pensei: "Por que se deixa um livro como esse tornar-se raro? Como as vozes que controlam o sistema educacional brasileiro deixam essa obra revolucionária sumir? Por que Mortimer Adler é um nome estranho nesse país, enquanto tornou-se uma espécie de símbolo da paideia americana e européia?"

Fui ao Google atrás de fotos do autor e eis que, sem intenção, encontro Olavo de Carvalho respondendo meus questionamentos:

"Fala-se muito, hoje, em educação para a cidadania. Mas só há duas maneiras de formar o cidadão: a educação liberal e a manipulação ideológica. Ou o sujeito aprende a absorver os dados da 'grande conversação' entre os espíritos superiores de todas as épocas e a tomar posição sabendo do que fala, ou aprende a falar direitinho como seus mestres mandaram, usando os termos com a conotação que desejam, segundo os interesses dominantes do dia. A opção brasileira está feita. Por isso, neste país, poucos souberam da vida ou da morte de Mortimer J. Adler".

Era justamente o que eu estava pensando.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Declínio da leitura

Allan Bloom
Quando reparei pela primeira vez no declínio da leitura, no final da década de 60, passei a perguntar às minhas enormes turmas dos anos preliminares, e a grupos de alunos mais novos, que livros realmente contavam para eles. A maioria ficava em silêncio, embaraçada com a pergunta. Para eles, era estranha a noção de livros como companheiros.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O livre-pensador

Chesterton
Hoje em dia, com frequência, lemos sobre a bravura e a audácia com que alguns rebeldes atacam a antiga tirania ou uma superstição antiquada. Não há qualquer coragem em atacar coisas velhas e antiquadas, não mais do que em se oferecer para combater a avó de alguém. O homem verdadeiramente corajoso é aquele que desafia tiranias jovens como a manhã, e superstições frescas como as primeiras flores. O único e verdadeiro livre pensador é aquele cujo intelecto é tão livre do futuro quanto do passado. Ele se importa tão pouco com o que será quanto com o que foi; ele se importa apenas com o que deveria ser.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Intelectualidade e orgulho


Poucas coisas no mundo enchem mais o homem de orgulho e prepotência do que a intelectualidade. O super-homem de Nietzsche e de Shaw é um bom exemplo. O homem que despreza o “fraco”, ou melhor, que lhe dá atenção, a fim de eliminá-lo. Precisamos de mais intelectuais humildes, que notem o estranho fato de que quem olha como superior, de cima para baixo, não pode ver o que está acima dele.

Leis, regras, disciplina

Em um de seus livros, Chesterton diz que a maior parte da liberdade moderna tem sua raiz no medo. “Ao contrário do que se possa pensar, não é que somos corajosos demais, a ponto de não nos submetermos às leis; é que somos muito medrosos para nos submeter às responsabilidades”. Esta é uma daquelas verdades que só é percebida por alguém que parece estar sentado numa estrela fixa, observando de longe o redemoinho do mundo.

De fato, a liberdade que se reivindica hoje é uma espécie de “licença poética” para viver. No entanto, não é uma licença para adicionar um pouco de criatividade às regras, e sim para desprezar as regras.

Parece um paradoxo, mas “qual a vantagem de dizer à comunidade que ela tem toda a liberdade, exceto a liberdade de fazer regras? A liberdade de fazer regras é o que constitui um povo livre”. Nos lugares mais ecléticos, não posso dar minha opinião, pois o que penso pode ofender alguém, por causa da diversidade de pessoas. Já aprendi que os defensores da tolerância são intolerantes. A “liberdade” deles é opressora e reprime qualquer comportamento “diferente”. O que chamam “liberdade de expressão”, significa que não se deve tocar na maioria assuntos relevantes.

“Eu jamais poderia conceber ou tolerar nenhuma utopia que não me deixasse a liberdade que mais prezo, a liberdade de me obrigar”. O mundo moderno esqueceu que as leis são o que mantém a liberdade do homem. Preferiu engolir a fantasia de que as leis transformam os homens em escravos e servos. Não me importa se querem chamar as regras e a disciplina de servidão, mas “alguém dirá que haja homens mais fortes do que os de antigamente que foram dominados por sua filosofia e impregnados por sua religião? Se a servidão é melhor que a liberdade é uma questão a ser discutida. Mas que a servidão deles fez mais que nossa liberdade será difícil negar”.

Em pouco tempo, da maneira que estamos caminhando, perderemos não só a disciplina, mas também qualquer divertimento, pois “se eu aposto, devo ser obrigado a pagar, ou então não existe poesia na aposta. Se eu desafio, devo ser obrigado a lutar, ou não haveria poesia no desafio. Se eu prometo fidelidade, devo ser amaldiçoado quando sou infiel, caso contrário não há graça na promessa. [....] A dissolução de todos os contratos não só destruiria a moralidade, mas também acabaria com as apostas. Ora, apostas e jogos dessa natureza são apenas formas atrofiadas e distorcidas do instinto original do homem por aventura e romance. [....] E perigos, recompensas, punições e realizações de uma aventura precisam ser reais, caso contrário a aventura é apenas um pesadelo incerto e cruel”.

“A doutrina e a disciplina podem ser muros; mas são os muros de um pátio de recreio”.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Encantamento

sábado, 16 de janeiro de 2010

A estupidez moderna

Gustavo Corção

O século XIV foi o sombrio e tumultuoso século da peste negra, da guerra de cem anos e da fragorosa ruína da civilização cristã. Nosso bravo século XX, em lugar da sombria nuvem pestífera que pairou cem anos sobre a cristandade agonizante, está sendo flagelado por uma outra nuvem, não menos sombria: a da estupidez satisfeita e otimista.

A multiplicação dos meios de informação em prejuízo dos meios de formação permite uma ilusão de saber, que é uma das formas mais impertinentes da tolice. Todo mundo pensa que sabe o que leu nas notícias ou viu na TV. Lendo a ida do homem à Lua, engolindo o fato, o farelo, a cinza, qualquer um se sente participante da coragem dos astronautas, quando na verdade ele não passa de um espectador que, de chinelo e pijama, engole voluptuosamente a informação que em nada eleva a sua inteligência nem purifica a sua vontade.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Um diálogo entre Boris Casoy e Gustavo Corção

Um diálogo interessante, se pudesse ter acontecido, me veio ao pensamento ao ver o "incidente" ocorrido no Jornal da Band no primeiro dia do ano. O jornalista Boris Casoy fez um comentário mais do que infeliz, que se tornou público por uma falha técnica que deixou "vazar" o áudio do seu microfone enquanto passava-se para o intervalo.

Boris Casoy:


"Que merda: dois lixeiros desejando felicidades... do alto de suas vassouras... dois lixeiros... o mais baixo da escala do trabalho..."


Corção, na semana do gari, em 1980, escreveu no jornal o seguinte:

Gustavo Corção:


"[O gari é] seu irmão varredor que você de longe vê na sua roupa de fogo desbotado a tentar uma façanha maior do que as famosas de Hércules: limpar os caminhos dos homens".


Corção foi um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Falando sobre sua antiga profissão de fiscal de lixeiros, ele comenta:

"[....] em vez de acompanhá-lo de longe como fiscal, acompanha-lo-ia de perto como lixeiro suplente ou como amigo. E assim as quatro horas de serviço encurtaram para nós ambos porque íamos andando e conversando.

[....] filosofávamos; e enquanto o burrico obediente ia arrastando devagar as sobras, os detritos e as sujeiras de uma longa rua adormecida, nós dois, irmãos pelo lixo, conversávamos sobre as coisas simples e luminosas que são os assuntos irresistíveis de todas as almas eternizadas pela humildade e pela pobreza.

Se a coluna das quintas e sábados não tivesse seus limites [....] todo o papel do jornal seria pouco para patentear a gratidão que carrego por tudo o que vi e ouvi e pelo que recebi de todos, a começar pelos humildes companheiros de perambulantes e fedorentas matinas".

Quantos vazamentos de áudio serão necessários para conhecermos aqueles em que confiamos para nos informar sobre o que acontece no mundo?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Bem aventurado quem nada espera

Chesterton
Toda a apreciação genuína se fundamenta num certo mistério de humildade e de quase escuridão. O homem que disse, “Bem aventurado quem nada espera, pois não será desapontado”, colocou o elogio muito inadequadamente e mesmo falsamente. A verdade é: “Bem aventurado quem nada espera, pois será surpreendido”. Quem nada espera, vê rosas mais vermelhas que os homens comuns, vê gramas mais verdes e um sol mais brilhante. Bem aventurado quem nada espera, pois possuirá as cidades e as montanhas; bem aventurado os mansos, pois possuirão a terra. Até que percebamos que as coisas podem não ser, não podemos perceber que as coisas são. Até que vejamos o fundo negro, não podemos admirar a luz como uma coisa criada e única. Tão logo tenhamos visto a escuridão, toda luz será imprevista, brilhante, ofuscante e divina. Até que imaginemos o nada, subestimamos a vitória de Deus, e não poderemos perceber nenhum dos troféus de Sua antiga guerra. Um dos milhões dos espantosos gracejos da verdade é que não sabemos nada até que nada saibamos.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O homem humilde

Chesterton

É o homem humilde que faz grandes coisas. É o homem humilde que faz coisas ousadas. É ao homem humilde que se concedem as visões sensacionais, e isso por três óbvias razões: em primeiro lugar, porque ele força mais seus olhos do que qualquer outro homem para vê-las; em segundo lugar, porque é mais inundado e elevado pelas visões quando elas acontecem; em terceiro lugar, porque as registra mais exata e sinceramente e com menos adulteração advinda de seu ordinário, orgulhoso e cotidiano ego. Aventuras são para aqueles a quem elas são mais inesperadas – isto é, mais românticas. Aventuras são para os tímidos: neste sentido, aventuras são para os não-aventureiros.