“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A ciência, as "leis" da natureza e os contos de fadas


Chesterton

[....] há certas seqüências ou desenvolvimentos (casos de uma coi­sa seguindo outra) que são, no verdadeiro sentido da pala­vra, razoáveis. Eles são, no verdadeiro sentido da palavra, necessários. Assim são as seqüências matemáticas e mera­mente lógicas. Nós do país das fadas admitimos essa razão e essa necessidade. Por exemplo, se as Irmãs Feias são mais velhas que a Cinderela, então é (num sentido irônico e ter­rível) necessário que a Cinderela seja mais jovem do que as Irmãs Feias. Não há como fugir disso.

Se Jack é filho de um moleiro, um moleiro é o pai de Jack. A razão fria o decreta de seu terrível trono: e nós do país das fadas nos submete­mos. Se todos os três irmãos andam a cavalo, há seis animais e dezoito pernas envolvidos: isso é racionalismo verdadeiro, e o país das fadas está cheio dele.

Mas quando ergui a cabeça acima da cerca dos elfos e comecei a notar o mundo natural, observei um fato extraordinário. Observei que homens eruditos de óculos estavam conversando das coisas reais que aconteciam como se ELAS fossem racionais e inevitáveis. Falavam como se o fato de as árvores darem frutos fosse tão NECESSÁRIO quanto o fato de que uma árvore mais duas são três. Mas não é. Há uma enorme diferença pelo teste do país das fadas, que é o teste da imaginação. Não podemos IMAGINAR dois mais um não somando três. Mas pode-se facilmente imaginar árvores que não produzem frutos; pode-se imaginá-las produzindo candelabros ou tigres pendurados pelo rabo.

Esses homens de óculos falavam muito de um homem chamado Newton, que foi atingido por uma maçã e descobriu uma lei. Mas não era possível levá-los a ver a distinção entre uma lei verdadeira, uma lei da razão, e o simples fato de maçãs caírem. Se a maçã atingiu o nariz de Newton, o nariz de Newton atingiu a maçã. Essa é uma verdadeira necessidade: pois não podemos conceber uma coisa ocorrendo sem a outra. Mas, podemos muito bem imaginar a maçã NÃO caindo sobre seu nariz; podemos imaginá-la voando fogosa pelos ares para atingir algum outro nariz, pelo qual ela sentia uma aversão mais clara.

Sempre fizemos em nossos contos de fadas essa distinção nítida entre a ciência das relações mentais, na qual há de fato leis, e a ciência dos fatos físicos, nos quais não há nenhuma lei, mas apenas estranhas repetições.

O cientista diz: "Corte o pedúnculo, e a maçã cairá"; mas diz isso calmamente, como se uma idéia de fato levasse à outra. A bruxa dos contos de fada diz: "Toque a corneta, e o castelo do ogro cairá"; mas ela não diz isso como se fosse alguma coisa em que o efeito obviamente surgisse da causa. Mas os cientistas quebram a cabeça até conseguirem imaginar uma conexão mental necessária entre uma maçã que deixa o galho e uma maçã atingindo o chão. Eles realmente falam como se tivessem descoberto não apenas um conjunto de fatos maravilhosos, mas também uma verdade ligando esses fatos. Falam como se a ligação de duas coisas fisicamente estranhas as conectasse filosoficamente. Sentem que, pelo fato de uma coisa incompreensível sempre vir depois de outra coisa incompreensível, as duas de certo modo constituem uma coisa compreensível. Dois enigmas negros constituem uma resposta branca.

No país das fadas nós evitamos a palavra "lei"; mas na terra da ciência eles são especialmente apaixonados por ela. Os contos, de qualquer maneira, são contos; ao passo que a lei não é uma lei. Uma lei implica que conhecemos a natureza da generalização e da execução; não simplesmente que notamos alguns dos efeitos. Se há uma lei dizendo que os batedores de carteira devem ser presos, isso implica que há uma ligação mental imaginável entre a idéia da prisão e a idéia de bater carteiras. E sabemos qual é essa idéia. Podemos dizer por que tomamos a liberdade de alguém que toma liberdades. Mas não podemos dizer por que um ovo pode transformar-se num pinto, assim como não podemos dizer por que um urso poderia transformar-se num príncipe encantado. Como IDEIAS, o ovo e o pinto estão muito mais distantes entre si do que o urso e o príncipe; pois nenhum ovo por si só sugere um pinto, ao passo que alguns príncipes realmente sugerem ursos.

Quando nos perguntam por que os ovos se transformam em pássaros ou por que as frutas caem no outono, devemos responder exatamente como a fada madrinha responderia se Cinderela lhe perguntasse por que os ratos se transformaram em cavalos ou por que as roupas dela desapareceram depois da meia-noite. Devemos responder que é MÁGICA. Não é uma "lei", pois não entendemos sua fórmula geral. Não é uma necessidade, pois, embora contemos com esse tipo de acontecimento na prática, não temos o direito de dizer que ele deve sempre acontecer.

Todos os termos usados nos livros de ciência, "lei", "necessidade", "ordem" e assim por diante, são realmente não-intelectuais, porque pressupõem uma síntese interior, que nós não possuímos. As únicas palavras que sempre me satisfizeram como descrições da natureza são os termos usados nos contos de fada, "sortilégio", "feitiço", "encantamento". Eles expressam a arbitrariedade do fato e do mistério. Uma árvore dá frutos porque é uma árvore MÁGICA. A água corre morro abaixo porque está enfeitiçada. O sol brilha porque sob encanto.

Eu nego totalmente que isso seja fantástico ou mesmo místico. É o homem que fala de "uma lei" que nunca viu, que é místico. Ou melhor, o cientista ordinário é estritamente um sentimental. Um sentimental no sentido essencial, de estar mergulhado em meras associações que o vão carregando. Ele viu tantas vezes pássaros voando e botando ovos que sente como se devesse existir alguma fantástica e delicada ligação entre as duas idéias, quando não há nenhuma.

Um amante desamparado talvez não seja capaz de dissociar a lua de seu amor perdido; assim o materialista é incapaz de dissociar a lua da maré. Nos dois casos não há conexão, excetuando-se o fato de que alguém viu essas coisas juntas. Um sentimentalista talvez derramasse lágrimas ante o perfume de uma macieira em floração, porque, por uma obscura associação pessoal, ela lhe traz à memória os tempos de criança. Assim também o professor materialista (embora esconda as lágrimas) é, todavia, um sentimental, porque, por uma obscura associação pessoal, a macieira em floração lhe traz à memória as maçãs. Mas o frio racionalista do país das fadas não vê razão por que, em abstrato, a macieira não deva dar tulipas encarnadas; isso às vezes acontece no país dele.

Todo o intenso materialismo que domina a mente moderna apóia-se, em última análise, numa suposição; uma suposição falsa.

2 comentários:

Anônimo disse...

As "leis" físicas também estabelecem relações de necessidade. As leis de Newton por exemplo apontam relações de necessidade entre massa, espaço e tempo. A igualdade em 2kg*20m/s² = 40N = 40kg*m/s² é semelhante à 2*20=40. A diferença é que quantidades são percebidas diretamente, enquanto grandezas não.

Daniel

Agnon Fabiano disse...

Concordo que existe uma relação de necessidade no seu exemplo, Daniel. Mas essa relação é um meio de quantificar ou medir aquilo que se considera uma "lei" na natureza, percebida através da observação.

"As leis são a norma a qual os acontecimentos devem se ajustar, sempre que movidos ou ocorridos. Porém, como conseguimos que ocorram? Como conseguimos que o movimento não se detenha? As leis da natureza não nos podem ajudar a responder essas perguntas. Talvez se possa expressar esta idéia dizendo que as leis da natureza explicam todas as coisas, exceto a origem dos acontecimentos".

Talvez você goste de ler também esse outro texto: As leis da natureza movem as coisas?

Abraço.