“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A sabedoria dos antigos (Prefiro os sebos às grandes livrarias)

Chesterton, acertadamente dizia que podemos encontrar todas as novas idéias em livros antigos, só que ali as encontraremos equilibradas, no lugar que lhes corresponde e, às vezes, com outras idéias melhores que as contradizem e as superam. Os grandes escritores não deixavam de lado uma moda porque não haviam pensado nela, mas porque haviam pensado também nas outras respostas. E mais, o que chamamos de idéias novas são, geralmente, fragmentos das velhas idéias. Não é que alguma idéia particular não tenha ocorrido aos antigos escritores. É que, simplesmente, eles encontraram muitas outras melhores para livrar-lhes da tolice.

Conhecer bons livros, muitas vezes, é uma questão de sorte (principalmente nessa época em que vivemos, com uma enxurrada de títulos que se nos oferecem). Porém, para quem, de alguma forma, conheceu um bom autor, o que se segue, aplicando-se o bom senso, é um "efeito dominó". Acontece da seguinte maneira: Conheci um bom livro de um autor A. Esse autor A cita um autor B, então compro livros do autor B. O autor B cita outro autor C. E assim sucessivamente. É uma corrente. Em pouco tempo, e algum dinheiro (sic), você estará com uma boa biblioteca.

Andei lendo alguns desses livros best-sellers que vemos em toda vitrine nas livrarias. Esses livros que nos oferece felicidade, dinheiro, amor perfeito e sucesso. É interessante como o assunto é tratado, falta leveza, falta estilo, falta conteúdo, enfim, falta tudo aquilo que compõe um bom livro. Em vez disso, temos “meia dúzia de máximas cínicas que estão longe de ser a expressão da verdade”. Se compararmos com algum "livro antigo", como Chesterton os chama, veremos a discrepância de idéias. Enquanto os antigos nos dizem uma verdade, os best-sellers, como os que eu li, nos ensinam o auto-engano, e pior ainda, sem nos dizer que aquilo é um auto-engano.

Mortimer Adler, nos anos 40, já denunciava:

Livros têm ganhado o aplauso da crítica e uma extraordinária atenção popular na mesma proporção em que eles faltam com a verdade - quanto mais eles o fazem, melhor. Muitos leitores, e muito particularmente aqueles que escrevem resenhas na imprensa, empregam outros padrões de julgamento para exaltar ou condenar os livros que lêem - a novidade, o sensacionalismo, a sedução, a força e até mesmo o poder de confundir ou desorientar a mente, no lugar da verdade, da clareza e do poder de esclarecimento.


Quer um exemplo? Em quase todos os best-sellers atuais de auto-ajuda que li, existe a mesma fórmula mágica da felicidade, que é a divinização do amor: “Siga a voz do coração! Faça o que o amor mandar”. Rebeldia, cujas conseqüências derivam dos desejos reprimidos dos quais Freud falava.

Por que os escritores antigos não descobriram essa fórmula mágica antes? Porém repito: não é que alguma idéia particular não tenha ocorrido aos antigos escritores. É que, simplesmente, eles encontraram muitas outras melhores para livrar-lhes da tolice.

Rougemont dizia que “o amor deixa de ser um demônio somente quando cessa de ser um deus” e Lewis completou dizendo que essa sentença pode naturalmente ser apresentada de outra forma: “começa a ser um demônio no momento em que começa a ser um deus”.

E, ao contrário do difundido conselho de “siga a voz do coração”, Lewis escreve:

Todo amor humano, em seu apogeu, possui a tendência de reivindicar uma autoridade divina. Sua voz tende a soar como se fosse a vontade do próprio Deus. Ela nos diz para não contar o custo, exige de nós um compromisso total, tenta superar todas as outras reivindicações e insinua que todo ato feito sinceramente "por causa do amor" é, portanto, legal e até meritório.

[...]

É preciso notar que os amores naturais fazem esta reivindicação blasfema quando se acham em sua melhor e não em sua pior condição natural; quando são o que nossos avós chamavam de "puros" e "nobres". Isto se evidencia especialmente na esfera erótica. Uma paixão fiel e genuinamente sacrificial irá falar-nos com o que parece ser a voz de Deus.

[...]

É possível que dediquemos a nossos amores humanos a fidelidade devida apenas a Deus. Eles então se tornam deuses: então se tornam demônios. Irão assim destruir-nos e também destruir a si mesmos. Pois os amores naturais, quando lhes é permitido que se tornem deuses, não permanecem amores. Continuam recebendo esse nome, mas se transformam na verdade em formas complicadas de ódio.

[...]

Este tema, aliás, tem grandes conseqüências práticas. A coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um certo impulso de nossa natureza como critério a ser seguido custe o que custar. Não existe um único impulso que, erigido em padrão absoluto, não tenha o poder de nos transformar em demônios. Talvez você pense que o amor pela humanidade em geral é livre de perigos, mas isso não é verdade. Se deixarmos de lado o senso de justiça, logo estaremos violando acordos e falsificando provas judiciais em prol do 'bem da humanidade'. Teremos então nos tornado homens cruéis e desleais.

A prudência com que os bons escritores tratam dos assuntos é aquilo que os destacam. Tudo é ponderado, medido, pesado. Extraem-se as conclusões, contrapõe-nas aos possíveis questionamentos, argumenta-se a favor, dá-se o veredicto.

Seguindo o exemplo que dei de Lewis, notamos a ponderação e a prudência, ele mesmo nos diz, em outro lugar, que os erros são enviados sempre aos pares (pares de opostos). E sempre somos estimulados a desperdiçar um tempo precioso na tenta­tiva de adivinhar qual deles é o pior. Sabe por quê? Porque o fato de você abominar um deles leva-o aos poucos a cair no extremo oposto;

Assim, Lewis contrapõe a questão da divinização do amor com o desprezo do amor e chega a um meio termo.

Não existe um investimento seguro. Amar é ser vulnerável. Ame qualquer coisa e eu coração irá certamente ser espremido e possivelmente partido. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em passatempos e pequenos confortos, evite todos os envolvimentos, feche-o com segurança no esquife ou no caixão do seu egoísmo. Mas nesse esquife - seguro, sombrio, imóvel, sufocante - ele irá mudar. Não será quebrado, mas vai tornar-se inquebrável, impenetrável, irredimível.

[...]

O único lugar fora do céu onde você pode manter-se perfeitamente seguro contra todos os perigos e perturbações do amor é o inferno.

Acredito que os amores mais fora-da-lei e imoderados são menos contrários à vontade de Deus do que uma falta de amor auto-provocada e auto-protetora.

[...]

Continua sendo verdade que todos os amores naturais podem ser imoderados. Imoderado não significa "insuficientemente cauteloso", nem "excessivo". Não se trata de um termo quantitativo. E provavelmente impossível amar qualquer ser humano simplesmente “demasiado”. Podemos amá-lo demais em proporção ao nosso amor a Deus; mas é a insignificância de nosso amor por Deus e não a grandeza de nosso amor pelo homem que constitui o excesso, embora mesmo isto precise ser aperfeiçoado.

[...]

A verdadeira pergunta é a quem você serve, ou prefere, ou coloca em primeiro lugar (quando surge a necessidade de fazer uma opção)? A sua vontade cede, em análise final, a qual das duas exigências?

[...]

O melhor amor de um ou outro tipo não é cego. [...] Se “tudo” - realmente tudo - “pelo amor” estiver implícito na atitude do ser amado, o amor dele ou dela não vale a pena de ser alcançado, pois não se relaciona da maneira certa com o próprio Amor.

Vou ficando por aqui. E espero que esse pequeno exemplo sirva para expressar por que prefiro os sebos às grandes livrarias.

PS: Nas grandes livrarias, quase sempre, não me agrada a estante dos “Mais Vendidos”.

6 comentários:

Elis disse...

Já li esse texto várias vezes e não me canso de lê-lo. A cada nova leitura, uma nova percepção. Mas um mesmo trecho sempre prende mais a minha atenção: a citação de Lewis sobre as questões do amor. Interessante como é possível associar as idéias dele à minha experiência pessoal. Fico me perguntando se ele faz toda essa argumentação baseado em suas próprias experiências. Penso que não é fácil falar de amor, com tanta sobriedade, sem tê-lo vivido. O amor pode ser pensado com muita complexidade ou com muita simplicidade. Talvez, a vivência do amor seja o fator determinante entre complexidade e simplicidade, suponho. Do amor só sei o que vivi. E, ainda assim, penso que não sei nada... rs.

Agnon Fabiano disse...

Lewis, às vezes, dizia que certas coisas são mais bem vistas por quem está de fora. Acho que ele viu o amor, por um bom tempo, "de fora". Na sua autobiografia ele fala que sempre foi muito isolado e que teve poucas mulheres. Tanto que se casou pela primeira vez aos 58 anos. Dizia ele que agora, com sua companheira, estava vivendo a melhor fase de sua vida, desfrutando aos 58 anos o que lhe fora negado aos 20. Não duraria tanto, pois quatro anos após o casamento, Joy Gresham, sua esposa, faleceu vítima de um câncer (casou-se com ela já sabendo que ela estava doente, em uma de suas cartas escrita a uma amiga, perto de seu casamento, ele diz que em pouco tempo seria marido e, logo mais, viúvo).
O fato é que Lewis conhecia bem a literatura clássica, inclusive a que trata do "Amor"(Platão, Aristóteles, Cícero, Ovídio, Stendhal, Sakespeare e tantos outros). Viveu intensamente o amor chamado pelos gregos de Philia, que é a amizade e também a Caridade. Era um excelente observador e tinha uma mente aguçadíssima, creio eu, por causa do grande conhecimento do que melhor se produziu na literatura. Era um homem que lia tudo e lembrava de tudo o que lia, como dizia um dos frequentadores da biblioteca que Lewis sempre visitava. Acho que sua sensibilidade vem mais de suas reflexões e observações do que da sua própria vivência.

Elis disse...

E de onde vem a sua sensibilidade? Da vivência ou de reflexões e observações? Rsrsrs. Bjo.

Agnon Fabiano disse...

Que sensibilidade? rs
Não creio que eu tenha sensibilidade, no sentido em que estamos falando. Certamente se eu a tivesse, seria pelas reflexões...rsrs

Elis disse...

Não tem, é? Bem...pareceu-me que sim...rsrsrs. Ainda que por reflexões, talvez. Mesmo quem está vendo de fora, pode ter um pouco dessa sensibilidade, sem, necessariamente, ser um "Lewis". Rsrsrs. Bjo.

Lety disse...

Concordo em número, gênero e grau. Aqui acho que cabe um comentário do Lewis (eu traduzi do inglês pq não sei se tem em português):
"Naturalmente, desde que eu mesmo sou um escritor, eu não desejo que o leitor comum leia livros modernos. Mas eu o aconselharia a ler os antigos. E eu gostaria de dar a ele este conselho precisamente porque ele é um amador e assim muito menos protegido contra os perigos de uma dieta exclusivamente contemporanea. Um novo livro está ainda em julgamento e o amador não está em posição de julgá-lo. Tem que ser avaliado pelo grande corpo de pensamento cristão, e todas suas implicações (frequentemente não suspeitadas pelo próprio autor) tem que ser trazidas à luz. Frequentemente não pode ser completamente compreendido sem o conhecimento de um bom número de outros livros modernos."
[...]
"Sentenças em um livro moderno que parecem muito normais podem estar direcionadas "a" algum outro livro; desta forma você pode ser levado a aceitar o que você teria indignantemente rejeitado se você soubesse seu real significado. A única segurança é ter um padrão claro, um cristianimo central ("mero cristianismo", como Baxter o chamou) que coloca as controvérsias do momento na perspectiva certa. Tal padrão pode ser adquirido somente dos livros antigos. É uma boa regra, depois de ler um livro novo, nunca permitir-se outro novo até que você tenha lido um antigo primeiro. Se isso é demais para você, você poderia pelo menos ler um antigo a cada três novos."