“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O engano dos best-selleres


Samuel Johnson em 1765 dizia que “os defeitos de um escritor de reconhecida excelência são mais perigosos, porque a influência de seu exemplo é mais ampla, e o interesse da erudição exige que sejam descobertos e apontados antes que lhes seja conferida a sanção da antiguidade e se tornem precedentes de autoridade inquestionável”[1].
Hoje, porém, com as mesmas proporções causadas pelos erros de um “escritor de reconhecida excelência”, temos aqueles escritores que, apesar da falta de excelência, influenciam profundamente o público através da “patente”. Basta um Ph.D ou uma cátedra em Oxford, Harvard, Cambridge, etc, para que tudo o que ele disser seja tido como verdade[2]. Discordo das palavras de Stanislav Andreski, quando dizia que o “pensamento confuso leva a lugar nenhum e pode ser tolerado indefinidamente sem produzir nenhum impacto no mundo", pois as conseqüências do “pensamento confuso” de um moderno escritor Ph.D são incalculáveis, simplesmente pela confiabilidade que lhe é dada com base em seus títulos. Richard Dawkins, por exemplo, é um excelente zoólogo, mas um filósofo trapalhão. O perigo surge quando, sob suas credenciais de zoólogo, ele nos quer ensinar filosofia. Pensa-se que ali estão as letras de um zoólogo profissional, quando, na verdade, estamos lendo o filósofo amador.
Um outro perigo é a quantidade de livros vendidos. Milhões de livros vendidos não é critério de avaliação de um escritor, ainda mais se for escritor moderno, já que vivemos um declínio da cultura intelectual[3].
Não me cansarei nunca de citar Mortimer Adler quando diz que “livros têm ganhado o aplauso da crítica e uma extraordinária atenção popular na mesma proporção em que eles faltam com a verdade - quanto mais eles o fazem, melhor. Muitos leitores, e muito particularmente aqueles que escrevem resenhas na imprensa, empregam outros padrões de julgamento para exaltar ou condenar os livros que lêem - a novidade, o sensacionalismo, a sedução, a força e até mesmo o poder de confundir ou desorientar a mente, no lugar da verdade, da clareza e do poder de esclarecimento”[4].
Aquilo que se conhece há mais tempo foi mais examinado, foi mais bem compreendido e resistiu a um número maior de provas. Por isso, prefiro os antigos...
A perenidade torna-se uma categoria de valor por sua ação de filtragem.


[1] Samuel Johnson, Prefácio à Shakespeare.

[2] Ver, por exemplo, Alan Sokal, Imposturas Intelectuais.

[3] Ver, por exemplo Allan Bloom, O Declínio da Cultura Ocidental e Gigante e Anões.

[4] Mortimer Adler, Como ler um livro ou A arte de ler.

3 comentários:

Aline disse...

Olá, Agnon! Compreendo sua reflexão. Aproveito o assunto para acrescentar meu incômodo em relação a um tipo específico de comportamento quando o assunto são as "obras literárias": achar que tudo que é best seller é desprezível. A professora Márcia Abreu (Unicamp), no livro "Cultura letrada - literatura e leitura", diz algo que me chama a atenção: [...] A suposta existência de valores absolutos faz que se julguem todas as obras imaginativas com uma mesma bitola. O resultado é previsível: obras não eruditas são avaliadas como imperfeitas e inferiores. Na verdade, elas são apenas diferentes. [...] Não estou propondo que se abandone o estudo do texto literário canônico, e sim que se garanta o espaço para a diversidade de textos e leituras; que se garanta o espaço do outro. É por aí... um abraço,

Agnon Fabiano disse...

Aline, concordo com a professoa citada. Aliás, como fãs do Lewis que somos, se você possui o livro "A experiência de ler", verá que é justamente disso que ele fala.
Lewis propõe uma classificação que se fundamenta não no bom ou mal livro, mas no bom ou mal leitor.

Agnon Fabiano disse...

Aproveitando para esclarecer: não sou tão ranzinza com a literatura moderna, apenas a maioria me decepciona justamente por aquilo citei de Mortimer Adler, e, pelo fato de que muitos deles tem aquela malícia denunciada por Lewis no livro "A Abolição do Homem". Porém, existem vários que admiro, principalmente, como você disse, as "obras literárias".