“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Algumas Idéias sobre os Livros e a Leitura

A. W. Tozer

Um dos grandes problemas em muitas partes do mundo con­temporâneo é aprender a ler, e em outras é descobrir o que ler depois de ter aprendido. Em nosso ocidente favorecido somos esma­gados sob o peso do material impresso, e o problema para nós se torna então o da escolha do que ler. Devemos também decidir o que não ler.

Há quase um século, Emerson declarou que se o homem pudesse começar a ler no dia em que nasce e continuasse lendo sem inter­rupção durante setenta anos, no final desse período teria lido um número de livros suficiente apenas para preencher um pequeno nicho na Biblioteca Britânica. A vida é tão curta e os livros de que podemos dispor são tantos que ninguém pode vir a conhecer mais que uma fração de um por cento dos livros publicados.

Não é preciso dizer que a maioria de nós não sabe escolher o material de leitura. Fico às vezes imaginando quantos metros quadrados de material impresso passa à frente dos olhos do homem civilizado comum no espaço de um ano. Com certeza chega a muitos acres, e temo que nosso leitor mediano não colha uma grande colheita de seus acres. O melhor conselho que ouvi neste sentido foi dado por um ministro metodista: "Leia sempre o seu jornal de pé". Henry David Thoreau também tinha um baixo conceito da imprensa diária. Pouco antes de deixar a cidade para a sua agora famosa permanência às margens do Lago Walden, um amigo lhe perguntou se gostaria que o jornal fosse entregue em sua casa de campo. "Não", replicou Thoreau, "já vi um jornal".

Em nossa leitura séria somos provavelmente bastante influen­ciados pela idéia de que o principal valor de um livro é informar; e se estivermos falando de livros didáticos, então isso será natural­mente verdade, mas quando nos referimos a livros, seja em conversa ou por escrito, não temos em mente esse tipo de leitura.

O melhor livro não é aquele que simplesmente informa, mas o que estimula o leitor a informar-se. O melhor escritor é o que nos acompanha através do mundo das idéias como um guia amigo que anda a nosso lado pela floresta indicando-nos uma centena de prodígios naturais que não tínhamos notado antes. Aprendemos então com ele a ver por nós mesmos e logo não mais necessitamos de um guia. Se ele tiver feito bem o seu trabalho, podemos continuar sozinhos sem perder quase nada de interessante no caminho.

O autor que nos ajuda mais é aquele que traz à nossa atenção pensamentos que estão pairando em nossa mente, à espera de serem reconhecidos como nossos. Tal pessoa faz o papel de uma parteira, assistindo ao nascimento das idéias que se achavam em gestação há muito tempo em nossa alma, mas que sem esse auxílio talvez não viessem a nascer jamais.

São poucas as emoções que nos satisfazem tanto quanto a alegria proveniente do ato de reconhecimento, quando vemos e identificamos os nossos próprios pensamentos. Todos tivemos mestres que pro­curaram educar-nos introduzindo idéias estranhas em nossa mente, idéias com as quais não sentíamos qualquer afinidade espiritual ou intelectual. Tentamos integrar essas noções no conjunto de nossa filo­sofia espiritual, mas sempre sem qualquer resultado.

Num sentido muito real homem algum pode ensinar outro; mas apenas ajudá-lo a ensinar-se a si mesmo. Os fatos podem ser trans­feridos de uma para outra mente, da mesma forma que uma cópia é feita passando o conteúdo da fita original para um gravador. His­tória, ciência e até mesmo teologia podem ser ensinadas desta forma, mas isso resulta num tipo de aprendizado bastante artificial e raras vezes influencia positivamente a vida do aluno num sentido mais profundo. O que o aprendiz contribui para o processo de aprendizado é tão importante quanto tudo que o professor possa contribuir. Se o aluno não participar com nada os resultados serão nulos; o mais que se pode esperar é a criação artificial de um outro professor, imitação do primeiro, que irá repetir em mais alguém o mesmo processo fatigante, ad infinitum.
A percepção das idéias em lugar da estocagem das mesmas deve ser o alvo da educação. A mente deve ser um olho que vê em lugar de um recipiente ou depósito de fatos.

4 comentários:

Elis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elis disse...

"O autor que nos ajuda mais é aquele que traz à nossa atenção pensamentos que estão pairando em nossa mente, à espera de serem reconhecidos como nossos. Tal pessoa faz o papel de uma parteira, assistindo ao nascimento das idéias que se achavam em gestação há muito tempo em nossa alma, mas que sem esse auxílio talvez não viessem a nascer jamais."

Li algo parecido no livro q vc emprestou-me (Filosofia para iniciantes - R. C. Sproul).
A teoria da recordação.

"Para Platão, o conhecimento não vem pela experiência (a posteriori), mas pela razão (a priori). As idéias fundamentais são inatas e não descobertas pela experiência. A melhor coisa que os sentidos podem fazer é despertar a consciência para o que ela já sabe. No pior das hipóteses, os sentidos podem iludir a mente. Ensinar é, de certa forma, o trabalho de uma parteira, em que o professor apenas ajuda o aluno a dar à luz uma idéia que já está ali."

Agnon Fabiano disse...

Pelo contexto, deve ser a teoria dos protótipos eternos de Platão.

Estou vendo que você está fazendo bom proveito do livro.

Elis disse...

Bem... o livro menciona a teoria da recordação.