“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

sábado, 17 de outubro de 2009

O pensamento moderno

Chesterton

Você já viu alguma vez alguém perder um salto por não ter recuado o suficiente? Esse é o pensamento moderno. Confia tanto em para onde está indo, que não sabe de onde vem.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009


"Lúcia passava um tempão na popa jogando xadrez com Ripchip. Era engraçado vê-lo pegar com as duas patas as peças muito grandes para ele e esticar-se na ponta dos dedos quando tinha de fazer jogadas no centro do tabuleiro. Era um bom jogador e, quando prestava atenção ao que estava fazendo, era certo e sabido que ganhava. Às vezes, porém, Lúcia ganhava, pois o rato fazia coisas incríveis, pondo um cavaleiro em perigo por causa de uma dama ou de um castelo. De repente, esquecia-se de que estava jogando xadrez, julgando-se em um combate real, obrigando o cavaleiro a proceder como ele faria se estivesse no seu lugar. Pois tinha o espírito cheio de arrebatamentos de outros tempos, de missões de morte ou glória, de decisões heróicas".

A viagem do Peregrino Alvorada, Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis.

domingo, 11 de outubro de 2009

Os dotes do corpo e os dotes da alma

Dom Quixote

"... há duas formosuras: uma da alma, outra do corpo; a da alma campeia, e mostra-se no entendimento, na honestidade, no bom proceder, na liberalidade e na boa criação, e todas estas partes cabem e podem estar num homem feio; e, quando se põe a mira nesta formosura e não na do corpo, o amor irrompe então com ímpeto e vantagem. Bem vejo que não sou formoso, mas também conheço que não sou disforme; e basta a um homem de bem não ser monstro, para ser querido, contanto que tenha os dotes da alma..."

sábado, 10 de outubro de 2009

O poeta e o historiador

Miguel de Cervantes

O poeta pode contar ou cantar as coisas, não como foram mas como deviam ser; e o historiador há-de escrevê-las, não como deviam ser e sim como foram, sem acrescentar ou tirar nada à verdade.

Quem sou - Parte II

Cumprindo a cada dia uma proeza muito rara nesse nosso tempo: continuar fiel a si mesmo. E, por isso mesmo, correndo o risco de enlouquecer à vista desse mundo. No entanto, se assim for, enloquecerei por amor à sanidade.

domingo, 4 de outubro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Prudência nas discussões

Mário Ferreira dos Santos

Evita as longas discussões, sobretudo com pessoas dispersas, que juntam argumentos sobre argumentos, sem ordem e sem disciplina, misturando juízos apenas de gosto com algumas pseudo-idéias mal-formadas e mal-assimiladas. Evita essas discussões que não são em nada benéficas.

Se não for possível conduzir o colóquio com alguém em boa ordem, segundo boa lógica, cuidadosa e organizada, é preferível que te cales. Sempre sê disciplinado no trabalho mental. Essa é a regra importante, e nunca ceder às vagabundagens do pensamento em conversas diluídas, dispersas, em que se fala de tudo e não se fala de nada.

O pessimista

Chesterton [com adaptações minhas]

O pessimista acha que tudo é ruim, exceto ele mesmo.


O ser humano pertence a este mundo antes de começar a perguntar se isso é agradável. Ele lutou pela bandeira, e muitas vezes conquistou heróicas vitórias por ela muito antes de estar sequer alistado. Para resumir o que parece ser a questão essencial, ele tem um dever de lealdade muito antes de ter qualquer admiração.

[O mundo] é a fortaleza de nossa família, com a bandeira tremulando no torreão, e quanto pior ele for, tanto menos razão para o deixarmos. A questão não é que este mundo é triste demais para ser amado ou alegre demais para não o ser; a questão é que, quando se ama alguma coisa, a sua alegria é a razão para amá-la, e a sua tristeza é a razão para amá-la ainda mais. Todos os pensamentos otimistas sobre a Inglaterra e todos os pensamentos pessimistas sobre ela são igualmente boas razões para o patriota inglês.

Volte às mais sombrias raízes da civilização, e você descobrirá que elas estão presas em volta de alguma pedra sagrada ou em torno de algum poço sagrado. As pessoas primeiro prestaram homenagem a um local e depois conquistaram a glória para ele. Roma não foi amada por ser grande. Ela foi grande por ter sido amada.

Qual é o problema do pessimista? Acho que ele pode ser exposto dizendo que se trata de um antipatriota cósmico. E qual é o problema do antipatriota? Acho que ele pode ser expresso [....] dizendo que se trata de um amigo sincero. E qual é o problema do amigo sincero? [....] o ponto negativo do amigo sincero é simplesmente que ele não é sincero. Sempre esconde alguma coisa — seu prazer sombrio em dizer algo desagradável. Ele alimenta um desejo secreto de ferir, não apenas de ajudar. É certamente isso, na minha opinião, que torna determinado tipo de antipatriota irritante aos olhos de cidadãos sadios. [Ele fala:] "Lamento dizer que estamos arruinados", mas ele de fato não lamenta nada. E pode-se dizer, sem retórica, que se trata de um traidor; pois ele está usando aquele perigoso conhecimento que lhe foi dado para fortalecer o exército, a fim de dissuadir as pessoas de se alistarem.

Exatamente da mesma forma o pessimista (que é o antipatriota cósmico) usa a liberdade que a vida [lhe] confere, a fim de aliciar e afastar as pessoas da bandeira [do mundo]. Admitindo-se que ele apenas declare fatos, é ainda essencial saber quais são suas emoções, qual é sua motivação. Pode ser que mil e duzentos cidadãos em Tottenham tenham sido afetados pela varíola; mas nós queremos saber se isso está sendo afirmado por algum grande filósofo que deseja amaldiçoar os deuses, ou simplesmente por algum [homem] comum que deseja ajudar os homens.

O pecado do pessimista não é, então, que ele pune os deuses e os homens, mas que não ama o que pune — ele não tem essa lealdade primária e sobrenatural às coisas.

domingo, 9 de agosto de 2009

O louco

Chesterton

A última coisa que se pode dizer de um lunático é que suas ações são sem causa.
Se algum ato humano qualquer pode, grosso modo, ser chamado de sem causa, trata-se de um ato menor de um homem sensato: assobiar andando por aí, golpear o capim com uma bengala, bater os calcanhares no chão ou esfregar as mãos. O homem feliz é que faz coisas inúteis; o homem doente não dispõe de força suficiente para ficar sem fazer nada.

São exatamente essas ações despreocupadas e sem causa que o louco jamais saberia entender; pois o louco (como o determinista) em geral vê causa demais em tudo. O louco veria um significado de conspiração nessas atividades vazias. Ele pensaria que o golpe no capim era um ataque contra a propriedade privada. Pensaria que as batidas dos calcanhares eram um sinal para um cúmplice. Se o louco pudesse, por exemplo, ficar despreocupado, ele ficaria são.

Todos os que tiveram a infelicidade de conversar com gente à beira ou no meio da desordem mental sabem que a qualidade mais sinistra dessa gente é uma clareza enorme de detalhes; a conexão de uma coisa a outra num mapa mais elaborado que um labirinto.

Se você discutir com um louco, é extremamente provável que você leve a pior; pois sob muitos aspectos a mente dele se move muito mais rápido por não se atrapalhar com coisas que costumam acompanhar o bom juízo. Ele não é embaraçado pelo senso de humor ou pela caridade, ou pelas tolas certezas da experiência. Ele é muito mais lógico por perder certos afetos da sanidade. De fato, a explicação comum para a insanidade nesse respeito é enganadora. O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Histórias de detetive x Histórias filosóficas modernas

Chesterton

"Uma história de detetive, geralmente, descreve seis homens discutindo sobre como aquele outro homem morreu. Uma história filosófica moderna, geralmente, descreve seis homens mortos discutindo como algum homem pode estar vivo."