“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Paradoxo da coragem


Chesterton foi o único que conheço que percebeu o paradoxo da coragem. Dizia ele que a coragem é quase uma contradição em termos, significa “um forte desejo de viver sob a forma de uma grande disposição para morrer”. Já vimos catástrofes de pessoas que saltaram de cima de prédios em chamas, homens que se precipitaram em penhascos e outros que enfrentaram feras, para salvarem suas vidas. Sob um desejo grande de viver, dispuseram-se a morrer. Em muitos casos, só se escapa da morte andando a um centímetro dela.

“Um soldado cercado por inimigos, se quiser achar uma saída, precisa combinar um forte desejo de viver com uma estranha despreocupação com a morte. Ele não deve simplesmente agarrar-se à vida, pois então será covarde — e não escapará. Ele não deve simplesmente aguardar a morte, pois então será suicida — e não escapará. Ele deve buscar a vida num espírito de furiosa indiferença diante dela...”

Nos casos mais extremos, a salvação consiste em não desejar salvar-se com demasiado desespero. “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á [....] (Marcos 8:35)”. O final deste mesmo versículo já é o inverso: “Quem perder a sua vida, salva-la-á”. Significa dispor-se a morrer para salvar-se. Chesterton faz alusão a estas palavras. Diz ele, a respeito de seu personagem, dependurado há vários metros de altura: “Lembrava-se de ter ouvido muitas vezes estas palavras: 'Quem perder a sua vida, salva-la-á.' Lembrava-se, com uma espécie de lástima, de que por elas sempre entendera que quem perdesse a vida corporal salvaria a vida espiritual. Agora sabia uma verdade já sabida de todos os lutadores, caçadores e alpinistas. Sabia que até a sua vida corporal só poderia salvar-se graças a uma forte disposição para perdê-la [....] Talvez encontrasse onde apoiar o pé ao descer a tremenda fachada, desde que não se preocupasse se tais apoios existiam ou não”.

C. S. Lewis, com muita agudeza, percebeu, parece-me, a essência desse paradoxo: “Numa batalha ou numa escalada de montanha, muitas vezes há uma manobra que exige muita coragem; mas é ela também que, no final, constitui o movimento mais seguro. Se você optar por outro curso de ação, ver-se-á horas depois num perigo muito maior. O caminho do covarde é também o caminho mais perigoso”.

Marcos 8:35 é uma orientação para o dia-a-dia de marinheiros e sodados. Poderia ser estampado no livro de orientações ou de treinamentos para escaladores de montanhas, mergulhadores, aventureiros e paraquedistas.

2 comentários:

Jefferson Góes disse...

Muito, muito interessante mesmo. Goste demais!

Lety disse...

Esse pensamento é um daqueles que vai fazendo "clique" (como disse Chesterton) quanto mais vc pensa sobre o assunto e relaciona com a vida...