“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

quarta-feira, 12 de março de 2008

Por que Deus não intervém?

Li ontem o comentário que um amigo fez no seu blog, sobre um incêndio em um pequeno edifício de uma cidade alemã. Ele falava que, entre os sobreviventes, havia uma criança que foi jogada, do terceiro andar, pelo pai e que foi aparada por um bombeiro. O amigo criticava aqueles que imputavam a Deus o salvamento da criança. Peguntava ele onde estava Deus em relação às outras nove vítimas. E conclui seu desabafo com a seguinte frase: "Eu prefiro queimar no fogo do inferno a acreditar num Deus desses..."

A impressão que tenho é que as pessoas que não acreditam na existência de Deus têm raiva por ele não existir.

Eu, sinceramente, não consigo conceber uma harmonia entre o livre-arbítrio e um Deus que tenha que intervir a toda e qualquer possibilidade de sofrimento humano. Ao redor de um homem mal, as leis da natureza estariam totalmente passíveis de variação. Deus se encarregaria de modificar as leis da natureza para que a pedra arremessada contra outrem não atingisse o alvo; ou faria com que a injúria proferida por alguém não chegasse aos ouvidos do injuriado (talvez formando uma zona de vácuo na boa do injuriante). Contudo, certamente, em tais situações, estaríamos reivindicando nossa liberdade.

O homem, desde os primórios se mostra um covarde, que foge de suas resposabilidades e imputa seus erros ao outrem. Sempre foi assim e sempre será. Para os céticos, Deus é um prato cheio para se atribuir nossos próprios erros.

4 comentários:

rubenita disse...

parabéns pelo texto, agnon...

a impressão que tbém tenho é que as pessoas passam a vida inteira sem consultar à Deus prá nada e quando algo terrível acontece... se lembram de que existe um Deus!!! e que de alguma maneira "ele pode intervir"!

tenho vivido essa experiência num das comunas mais tristes do orkut (site de relacionamento): "perdi um filho".

lá, não há o que dizer e mesmo que se diga não há como ser ouvida, a não ser que o Senhor prepare os corações...

só passei prá dizer um oi... vou continuar lendo os outros textos!

abraço grande "rapaz de poucas palavras"!! rsrsrsrs!

Jefferson Góes disse...

Comentário ao seu comentário do meu texto intitulado Santa Paciência.

Em primeiro lugar: de tudo que escrevi não se pode deduzir que eu não acredito em Deus. Você poderia concluir, no máximo, que não concordo com as pessoas que atribuem a Deus o salvamento da criança. Aliás, talvez você perceba que uma das mensagens que procurei apresentar com o meu texto não diverge completamente da conclusão a que você chega em seu próprio escrito, segundo a qual Deus não pode ficar alterando as leis da natureza em cada ocasião que lhe rogamos. Isso fica bem evidente e, numa releitura, estou certo de que você o constatará.
Recuso-me, como escrevi lá no meu texto (Título: Santa Paciência. http://palavrasemgotas.blogspot.com) a compartilhar da mesma crença de inúmeras pessoas que se pronunciaram num site e comentaram coisas do tipo: foram as mãos de Deus... Penso que se Deus supostamente interveio no resgate do bebê arremessado pelo pai do terceiro andar, ele foi muito parcimonioso. Por que então Ele não aproveitou o ensejo de realizar um milagre para executar mais alguns? Convenhamos: seria mais performático!
De acordo com a sua releitura creio que você perceberá também que não direciono qualquer crítica a Deus por Ele não ter evitado a morte de outras tantas crianças no incêndio. Ressalto que quem salvou a criança foi um bombeiro e que não será Deus o enfermeiro dos feridos. A todo instante enfatizo a ação humana e em nenhum momento sugiro que haja qualquer culpa ou responsabilidade por parte de Deus. Mas, em todos os momentos, desejei criticar (e ninguém pode me condenar por isso!) concepções de Deus que, no meu entender, são simplórias. Que concepção de divindade terei eu, então, para oferecer em contrapartida, você talvez me pergunte. Na verdade, nenhuma. Isso quer dizer que Deus não existe? De modo algum. É possível viver sem essa certeza? Muito bem! E o que os outros acham de mim? Não creio ser presunçoso ao dizer que sou muito querido por alguns, e dificilmente serei odiado por alguém (mas que importa! Deus, como você mesmo disse, é tão odiado, né? E Ele não é infeliz por isso).
Não apodreço por ter desterrado as minhas raízes dum Deus. Não tenho qualquer raiva por não tê-Lo como norte. Ao contrário, sinto-me, enfim, livre (o que também não significa que faço tudo que me dá na veneta, afinal o meu arbítrio não é tão livre assim...). Sinto-me, enfim, livre e feliz. Sinto-me feliz e não excogito alijar o sofrimento da existência, como querem muitos (mesmo o Verbo encarnado não o pôde ou não o quis): luto para minimizá-lo o quanto possa na minha vida e na dos meus semelhantes. Não sou ressentido com a vida a ponto de querer uma outra vida plena de felicidades numa outra dimensão após esta vida plena de vicissitudes que levo. Vou para a aula agora. Se no caminho algo de ruim me ocorrer, não culparei Deus. Se sobre as pessoas que amo se abater o sofrimento, tentarei ajudá-las e também não culparei Ninguém. Já me aconteceram tantas coisas ruins, amigo. Já culpei Deus, é verdade. Mas fui um tolo. Hoje estou tranqüilo. Reconheço a beleza da minha vida, a despeito das incontáveis dificuldades que já se me apresentaram e que ainda se me mostrarão: a balança da minha existência pende para a felicidade. Se fui criado por um Deus, mando-Lhe um alô, somente. Não me interesso mais por sondá-Lo. Basta! Tenho feridas para cuidar e jardins para regar.
O que vou falar pode parecer que estou me contradizendo, mas insisto: indiferença é bem diferente de ódio. Mas, como já levei a fama no seu texto de ter raiva de Deus, lanço uma brincadeirinha que talvez me custe a sua raiva: sabe quando terei ressentimento ou raiva de Deus? Quando vier a passar a eternidade no inferno, pois aí sim terei absoluta convicção da Suas inexistência e má-vontade para obrar milagres. Só acreditaria no Deus daqueles leitores que comentaram o incêndio se Ele mesmo descesse no inferno e de lá me levasse para o Seu mundinho.

Jefferson Góes disse...

errata:

no final do texto deveria ser: "terei absoluta convicção de Suas Existência e má vontade para obrar milagres" e não "Inexistência".

Agnon Fabiano disse...

Meu amigo Jefferson, bom conhecer melhor suas convicções a respeito de Deus.
Desculpe-me se pareceu uma crítica a você. Na verdade é um comentário a uma das frases que mais ouço quando se fala de Teodicéia ("Eu prefiro queimar no fogo do inferno a acreditar num Deus desses...").
O ponto central de minha postagem não é uma crítica ao colega, mas o fato de o homem usar a sua própria maldade para negar a Deus. Por isso não pus o link do seu blog como referência a minha citação, pois não tinha intenção de comentar o que o Jefferson disse, mas aproveitei algo de suas palavras, que, com algumas variações, representa um pensamento bastante difundido no ceticismo.
Quanto à brincadeira, não custou minha raiva, e acredite, o que eu mais queria é que, de repente, Deus dissesse que acabou esse negócio de inferno. Seja o que for no que as pessoas criam, iremos todos para o mesmo lugar. Queria mesmo que fosse assim. Quem sabe não aconteça? Gostaria bastante, mas, será que as pessoas irão querer a ajuda dEle? Diz-se que o inferno tem as portas fechadas pelo lado de dentro.
De qualquer forma, agradeço seus comentários, só lamento se dei a entender que criticara o amigo.
Achei interessante a questão de você se dizer indiferente quanto a Deus. Só não consigo é entender como (rs), mas vou refletir um pouco sobre isso. Quem sabe até possamos conversar melhor sobre tal assunto.
Um abraço.