“Contenham esse avanço... Façam qualquer coisa, por menor que seja... Mantenham aberta ainda que seja uma só porta dentre cem, pois conquanto que tenhamos pelo menos uma porta aberta, não estaremos numa prisão.”
(G.K.C)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Imposturas intelectuais


Muitas vezes, temendo por estarmos errados, expomos nossas idéias de modo vago, deixamo-las vagando no ar como fumaça. Assim, caso nossas idéias sejam atacadas, podemos sair escorregando, aqui e ali, pelas brechas, mostrando que não é bem isso, ou que fomos mal entendidos. Então conduzimo-las a se adaptarem à crítica feita.

Acontece que o homem que é mal entendido tem pelo menos uma vantagem sobre seus inimigos: “eles não conhecem seu ponto fraco ou seu plano estratégico. Eles saem para caçar pássaros com redes e saem para pescar com espingardas” (Chesterton).

A ciência moderna tem se aproveitado bastante dessa vantagem. Não faz muito tempo, foi lançado no Brasil o livro “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal e Jean Bricmont. No prefácio, os autores nos dão a idéia do conteúdo: “O livro originou-se da farsa, agora famosa, que consistiu na publicação, por um de nós, na revista americana de estudos culturais Social Text, de um artigo satírico cheio de citações sem sentido, porém infelizmente autênticas, sobre física e matemática, proferidas por proeminentes intelectuais... Esta obra trata da mistificação, da linguagem deliberadamente obscura, dos pensamentos confusos e do emprego incorretos dos conceitos...”

“A ciência anda substituindo a idéia de que os fatos e as evidências é o que importam, pela idéia de que tudo se reduz a interesses individuais e perspectivas subjetivas.” (Larry Laudan)

A obscuridade das idéias tem se tornado sinônimo de intelectualidade. Quanto menos entendermos um autor, tanto mais exaltado ele será.

Nossa dificuldade, como público, está em detectar tais “Imposturas”. Como público, digamos, leigo, torna-se muito complicado analisar a honestidade e o compromisso do autor com os fatos.

O esperto Wilks de “O homem que era quinta-feira”[1], se saiu bem diante das “Imposturas Intelectuais” do Sr. Worm:

“Quando ele [Worm] dizia uma coisa que ninguém, a não ser ele, sabia, respondia-lhe outra que nem eu próprio [Wilks] conhecia.

— Não imagine - disse ele - que teria conseguido deduzir o princípio de que a evolução é apenas negação, pois é inerente a ele a introdução de lacunas, que são essenciais na diferenciação.

Respondi desdenhosamente:

— Leu isso tudo no Pinckwerts, e já há muito que Glumpe expôs a idéia de que a evolução funcionava eugenicamente.

Não preciso nem dizer que Pinckwerts e Glumpe nunca existiram, mas, com grande surpresa minha, toda aquela gente parecia lembrar-se muito bem deles...

— Vejo – disse ele - que você prevalece, como o porco falso de Esopo
[2].

— E o senhor falha - respondi, sorrindo - como o porco-espinho de Montaigne.

Será necessário dizer que não existe nenhum porco-espinho em Montaigne?”

[1] Romance de G. K. Chesterton.
[2] Talvez referindo-se à fábula "O barrote, as ovelhas, o lobo e os porcos da aldeia" de Esopo.

Um comentário:

Ronni disse...

Nossa, que massa! Excelente texto!

PS.: Quanta coisa pra ler aqui no blog, hein?!